TVez
Por Leila Míccolis*
(24/08/2003)
Se todos que falam mal do nível da programação de televisão quisessem melhorá-lo, a TV Educativa e o Canal Futura teriam pelo menos o triplo da audiência que têm hoje, concordam?
A verdade é que a TV não tem vez; virou moda acusá-la de fútil, com argumentos fúteis... - "Veja isto, um absurdo estas danças das garrafas, em horário da tarde" - dizia-me um pai de família, de olhos grudados na televisão (ele e a filha, ao seu lado...). Novela, então - Deus meu - passou a ser taxada de "folhetim", como se folhetins não fossem as obras de Flaubert, Alexandre Dumas (pai e filho), Zola, ou Victor Hugo, verdadeiros dramas "mexicanos", se fossem transpostas para a linguagem televisiva. A atual conotação pejorativa da palavra distancia-a, cada vez mais, de suas origens, quando, em uma época de brilho, folhetim era uma seção literária publicada dentro de um grande jornal. A famosíssima obra Finnegans Wake, de James Joyce, originou-se de uma novela intitulada Work in Progress, publicada em fascículos (portanto em capítulos) dezesseis anos antes, no Transicionpor, um mensário transatlântico francês. Hoje, é "cult" citar-se Finnegans Wake e os "work in progress" da vida artística pós-moderna; mas é quase uma heresia para alguns intelectuais adjetivar-se Joyce de folhetinesco. E, no entanto, ele o foi, literalmente inclusive.
Pessoalmente, nunca me interessei em assistir novela de televisão, acompanhei pouquíssimas antes de escrevê-las - língua fala, língua paga... (até hoje continuo só acompanhando algumas que me tocam mais de perto, sejam pela carpintaria, pelo tipo de linguagem, pelo tema, ou mesmo pela admiração que nutro pelos seus autores). No entanto, também não sou das que acham que, para intitular-se intelectual, ou para se ser contra a política cultural do país, é necessário apenas ler livros e citar nomes famosos ou esquecidos. É por este tipo de comportamento que me sinto à vontade para transitar pelos dois veículos com relativa tranqüilidade e escrever sobre os roteiros televisivos.
Não só, mas também. Ou seja: abordar os roteiros, principalmente novelescos, priorizá-los, mas sem perder o contato com as histórias paralelas, verídicas, que acabam fazendo com que a novela seja uma espécie de metalinguagem, representação principal dentro de um contexto maior, que lhe serve de moldura.. Como o poeta Torquato Neto já dizia: escrever é apenas a ponta do iceberg. E escrever roteiro para TV então é, na prática, lidar o tempo todo com os bastidores, em vários níveis.. Por isso costumo dizer aos participantes dos meus cursos on line que ainda incluirei neles, algumas matérias básicas como: relações públicas (para lidar com a produção), estratégia e marketing (para lidar com o departamento de merchandising), administração financeira (para lidar com o departamento pessoal), psicologia (para lidar com o elenco), estatística (para lidar com o IBOPE), História (para orientar a equipe de pesquisas), defesa psíquica (para lidar com os nossos próprios fantasmas e os dos outros), diplomacia (nem é preciso explicar para quê), além de algumas noções elementares de auto-ajuda, do tipo: como obter sucesso, como não perder a calma, como vencer a insônia, como se livrar do estresse (este é para depois dos seis a nove meses de novela no ar), etc. e tal.
Escrever é uma grande aventura, porque lida com vários mundos paralelos, com todo este universo de "causos" de bastidores - reais, contrapondo-se às tramas fictícias - que de vez em quando merecem entrar em cena e serem divulgadas também. E é o que pretendo fazer por aqui. No entanto, não quero apenas escrever, gostaria também de ouvir, de "dar voz" a vocês. Então, vou reservar sempre algum espaço para responder a uma ou duas perguntas por aqui - as que me parecerem mais de "utilidade pública": miccolis@zaz.com.br. Depois deste trailer, conto com vocês na estréia do primeiro capítulo de TVez, na próxima quinzena, neste mesmo web canal...
(*) Poeta, escritora de cinema, teatro e TV ("Pais Problemas", "Rainha da Vida", "Olho por Olho", "Kananga do Japão", "Barriga de Aluguel", "74.5" (versão internacional), "Mandacaru", entre outros, ex-roteirista da Rede Globo e da TV Manchete.
E-mail: miccolis@zaz.com.br
Home page: http://www.blocosonline.com.br/sitespes/lm/index.htm
Site de sua editora Blocos: http://www.blocosonline.com.br
ROTEIROS ON LINE
http://www.roteirosonline.com.br
contatos@roteirosonline.com.br
Copyright © 2001/2006 by Denise Camillo Duarte