Vocabulário, estilo e temática devem ser pessoais para que um poeta esteja entre os maiores, mas dum poeta maior também se cobra, direta ou indiretamente, que esteja "comprometido" com causas sociais, para que possa ser tido na conta de legítimo intérprete de seu povo e de sua cultura. Glauco Mattoso, que se filia à linhagem de Gregório de Matos, é detentor de todos aqueles pré-requisitos e, quanto ao engajamento, também é pessoal na maneira de abordar as misérias humanas: em seu autodenominado "desumanismo", põe o dedo (sujo) na ferida e infecciona as chagas com a crueza e a crueldade do livre-pensador, tão libertino quanto libertário. Abaixo vai uma seleção de seus sonetos mais desbocadamente contestadores, nem por isso menos solidários com outros injustiçados e revoltados. SONETO 64 CALÇADO O tênis dum moleque de maloca difere do boyzinho só no preço. O uso os torna iguais até no avesso, onde o chulé se entranha e a sola toca. A cor do couro nunca mais se evoca debaixo do encardido véu espesso. O bico traz a marca do tropeço, e a lama no solado é uma paçoca. Não posso mais olhar embevecido porque estou sem visão, mas já pressinto tais tênis pelo olfato e pelo ouvido. Um som característico e distinto e um cheiro que transporta-me a libido da língua ao pé e do tênis até o pinto. SONETO 125 INCRÍVEL Comenta-se que o tênis do burguês exala odor mais fétido e malsão que a bota do operário em construção ou mesmo o borzeguim do camponês. Será possível tanta estupidez? Quem diz tal coisa incorre em prevenção, pois nem todo político é ladrão, nem todo ladrão fala economês; Nem todo economista é um impostor, nem todo impostor visa sempre o mal, nem todo malefício causa horror. Convém cheirar o tênis como igual à bota e ao borzeguim no seu fedor. O resto é discriminação nasal. SONETO 140 REVOLTADO Os homens abominam tiranias, condenam ditaduras de direita, e mesmo o socialismo não aceita caudilhos que arremedam monarquias. Torcendo por Davi contra Golias, dizendo não aos líderes de seita, assim a Humanidade desrespeita os mandos e desmandos dos maus guias. Mas mais cruel, covarde e prepotente é o Deus Onipotente que nos cria a fim de judiar, unicamente. Foi Ele quem, à minha revelia, cegou-me e fez de mim um penitente que apenas desabafa em poesia. SONETO 141 CONFORMISTA Os homens autorizam tiranias, aprovam ditaduras de direita, e mesmo o socialismo não rejeita caudilhos que arremedam monarquias. Aclamam generais os mais caxias, endeusam loucos líderes de seita; Assim a Humanidade se sujeita aos mandos e desmandos dos maus guias. Mas mais servil, covarde e suplicante é o gesto humano aos pés daquele Deus tão santo, que não há quem o suplante. Castiga em nós os próprios erros Seus Aquele que é meu Pai, meu semelhante, e tem olhos tão cegos quanto os meus. SONETO 211 MARXISTA Os russos, cujo pé não é pequeno, fizeram a cabeça do Fradim; levaram seu regime até Pequim; pisaram nos nazistas sobre o Reno. Lembrando do cubano e do chileno, entre um artigo e outro do PASQUIM, defendem os peões no botequim um socialismo etílico e moreno. Indígenas exigem, nada ingênuos, do proletariado a tirania, mas só os caciques têm poderes plenos. E eu digo que utopia preferia: Capitalismo é coisa de somenos. Mais vale um pé na mão que a mais-valia. SONETO 273 BÉLICO As armas, munições, armazenadas são muitas vezes mais suficientes para extinguir da Terra seus viventes, e continuam sendo fabricadas. Revólveres, canhões, fuzis, granadas, torpedos, mísseis mis, bombas potentes, festim, balas Dum Dum, cartuchos, pentes, martelos, foices, paus, facões, enxadas. Romanos, que eram bons de guerra e paz, disseram: "Si vis pacem, para bellum.": Parece que os modernos vão atrás. Não quero exagerar no paralelo, mas quanto menos ronda a bota faz, mais folga ostentará o pé de chinelo. SONETO 274 PACIFISTA Apelos pela paz são comoventes: Parece até que toda a raça humana ou quase toda, unânime, se irmana na firme oposição aos combatentes. Campanhas e cruzadas e correntes envolvem muita mídia e muita grana, mas nada se compara à força insana do gênio armamentista em poucas mentes. Pombinhas, flores, nada disso importa na hora da parada militar, se acharmos que o perigo bate à porta. A fim de protegermos nosso lar, deixamos que haja tanta gente morta, mas não aqui: só lá, noutro lugar. SONETO 365 MARRETEIRO Miçangas, badulaques, miudezas. Ao sol, quinquilharia, livre feira. Na esquina, na calçada, na ladeira, ofertas, novidades e surpresas. Muambas que deixaram de ser presas. Comidas que não vão à geladeira. Gorjetas na sarjeta, na sujeira. Achaques a pessoas indefesas. O rapa passa rápido e reprime. Mais rápido, o ambulante se mistura ao povo, cuja luta não é crime. Nas veias da metrópole, a fartura afronta a autoridade, que se exime da culpa, da lição, da ação, da cura. SONETO 366 PERUEIRO Direito de ir e vir, na urbana zona, já vem adjetivado: clandestino. Sem ponto inicial e sem destino, é como andar ao léu, pedir carona. Milhões de passageiros vêm à tona no mar do subemprego citadino. Em rica limusine os leva o fino chofer, e a domicílio os estaciona. Sem ônibus ou táxi ou trem, o povo o vê como o ceguinho vê seu guia. Sem ele não vou longe: nem me movo. Melhor que caravela em calmaria é ter esse Colombo com seu ovo. Pão nosso, lotação de cada dia! SONETO 368 APOSENTADO Chuteiras se penduram quando vem a idade, e na pendura vive o idoso. Trabalha desde cedo, e só no gozo do prêmio merecido vê o vintém. No topo da pirâmide, porém, alguém o xinga até de preguiçoso. Governo vagabundo, vil, vaidoso é aquele cujo papo é o nhem-nhem-nhem. O velho enfrenta fila e pede esmola, enquanto, do outro lado do balcão, risonhos burocratas comem bola. Políticos não pensam em pensão, pois, quando se aposentam, quem controla seu saldo é o santo banco do cantão. SONETO 370 SEM-TERRA Não há justiça agrária sem reforma, repete o campesino rebelado. "Ou cedem-me o terreno, ou eu invado!" E o latifundiário se inconforma. Marxismo primitivo, mas em forma: Com práxis de guerrilha, lança o brado, sitia, ocupa, pilha a safra, o gado, arrepiando o estado, a lei, a norma. Revolução começa pelo campo e acaba na cidade, onde se junta à massa de manobra a mão sem trampo. No ar, só paira a histórica pergunta que o inepto agente capta pelo grampo: "Quem disse que a utopia era defunta?" SONETO 371 HEDIONDO Estupros, latrocínios e seqüestros, o horror do genocídio racial merecem punição especial: castigos, não sinistros, porém destros. O riso é o mais sarcástico dos sestros que crispam o desenho facial. Dos crimes ri o Mentor, Senhor de Tal, o Réu, maior de todos os maestros. Na certa o Onipotente é quem responde por tudo que acontece pra quem erra, e atrás da impunidade Ele se esconde. Levá-lo a Nuremberg, após a guerra! Puni-lo com prisão perpétua! E onde? No inferno que pra nós criou: a Terra! SONETO 378 PLURALISTA Direito à diferença é um novo dado. Iguais perante a lei éramos já, mas este ninguém tira, ninguém dá, não pode ser vendido nem comprado. Se formos deduzindo com cuidado, nenhum igual ao próximo será. Um homem quer comer; um outro está contente e satisfeito por ter dado. Se todos preferissem verde oliva, não sei o que seria do amarelo! Ainda bem que existe alternativa! Leitor do Glauco vê que o feio é belo. Tiete lê Drummond, pivete o Piva. O rumo é o mesmo, o trilho é paralelo. SONETO 384 PASSIVO Amigo meu reclama que exagero, vejo guerra civil em todo canto. Se tanta violência causa espanto, o excesso não é meu: sou só sincero. Menores internados fazem mero motim; quem os comanda é o menos santo. Os berros dos reféns são acalanto aos tímpanos cruéis do mini-Nero. Enquanto a autoridade não se move, os jovens se mutilam, decapitam. Ainda faltará a prova dos nove? Você também é desses que acreditam que a coisa tem remédio? Então me prove! Enterrem os defuntos e reflitam! SONETO 403 PATRULHEIRO Os chefes das três Armas, reunidos, convêm que o território corre risco. O pau bate no Chico e no Francisco, e a mãe jamais escuta seus gemidos. A imprensa cala. Fecham-se os partidos. Poupanças, terras, bens sofrem confisco. O povo, que era alegre, vira arisco. Banida, a esquerda junta os desunidos. Um dia, a quartelada desmantela de podre, sem apoio das potências. O povo vota, e vê que a vida é bela. Um "novo tempo" acalma as consciências. Ninguém persegue mais a esquerda: é ela que caça as bruxas, pune as dissidências. SONETO 405 SINGULAR Quem gosta de igualar o ser humano compara o magro ao gordo na virtude, o mongolóide ao gênio na saúde, os corpos nus, e não a cor do pano. Quem diz que algum político é meu mano ou que bandido é gente não me ilude. Será que entre a velhice e a juventude existe sintonia? Ledo engano! Fazer comparações não alivia a fome, as privações, a perda, a dor. Apenas ao sofisma cria a via. Pois creio que a distância é bem menor entre uma pobre prosa e a poesia que aquela entre o poeta e o prosador. SONETO 453 (CONTO OLÍMPICO) Famoso sociólogo convida um líder camponês para um banquete a fim de se exibir. Ao palacete chegando, o estranho entende com quem lida. Do excesso nos talheres, na comida, ao preço duma tela, dum tapete, lá tudo contradiz o cacoete de quem estuda a classe mais sofrida. O jovem militante está ofendido com tanta ostentação. Entre os convivas, artistas e caciques do partido. Quando à Revolução se brindam vivas, já tinha o lavrador dali saído, deixando algumas caras pensativas. SONETO 510 MALOCATÁRIO Soneto é um apertado apartamento num vasto condomínio de inquilinos. A mesma planta e vários seus destinos: um drama urbano em cada pavimento. Dois quartos, pouca luz e muito vento, que podem ser alcovas ou cassinos, paróquias parcas, clubes clandestinos, abrigo do autor brega ou do briguento. Agora virou zona, mas um dia foi casa de família e regra tinha: conversa só começa se o pai pia. Além da comezinha escrivaninha, só tem privada, cama, mesa e pia. Sem sala, o papo acaba na cozinha. SONETO 530 NATITORTO Se os direitos humanos são de todos, os humanos direitos são lesados, pois são só criminosos advogados defensores na Lei de tais engodos. De um "Maluco" ou de um "Monstro" são apodos os que fazem valer seus "justos" brados: seus "direitos", de fato, são comprados com dinheiro embebido em sangue, a rodos. Se animais em dois tipos se dividem; se os nocivos e os bons não confundimos, entre humanos a Lei tem que ser idem! Um bandido e um do bem não são nem primos, muito menos irmãos! Aos que duvidem, suas mães que os maus tratem com bons mimos! SONETO 537 MANCHETADO O dólar só "dispara", nunca "sobe"; a bolsa só "despenca", nunca "cai"; "explode": da inflação é só o que sai... E o desemprego? Há número que englobe? "Recorde desde o ano tal", o esnobe repórter econômico diz. Dai- nos saco, ó meu Senhor! O Paraguai, que tem menos "percent", tem mais "job"! Parece que esse assunto é tão sem graça que os chatos jornalistas não têm como chamar nossa atenção ao que se passa... Na tela, economês fala até Momo! Somente no intervalo a pobre massa relaxa vendo anúncio de algum Omo... SONETO 538 MOTO-BOY Sem ter por proteção jaqueta ou bota, às vezes nem sequer o capacete, enquanto seus patrões no gabinete relaxam, segue o boy a sua rota. Nem sempre anda em veículo de frota, possante ou equipado, mas compete no trânsito e no pico pinta o sete, nos sete às sete entrega e a cota esgota. Armado, um deles mata; um outro assalta; algum é descalçado por madames que lambem sola e grana pagam alta. Não passa, a maioria, nos exames, mas é corrida a vida do peralta! Dependes dele, ainda que o não ames! SONETO 675 JUSTIFICADO [a Frei Betto] Se, esperto e inteligente, um ditador quiser poder total e vitalício, terá que, desde o golpe, obstar o vício de a "duro" ou "direitista" se propor. Esquerdas são "legítimas": terror, tortura ou genocídio no exercício do cargo dão pretexto até propício ao líder, que tem mídia a seu favor. Até intelectuais tomam partido do Estado, se o regime for de esquerda, alheios ao que o povo tem sofrido. Se morre o ditador, vão se esquecer da carreira sanguinária, mas do olvido se salva desse "herói" a "grande perda"! SONETO 680 MENSURADO [a Carlos Chagas] Pesquisa científica revela: chulé de adolescente grandalhão mais fétido é que o cheiro do colhão dum jovem desnutrido de favela. Segundo uma estatística, a panela vazia está cheiíssima, e um milhão, se for bem calculado, o espertalhão embolsa e faz de conta que parcela. "Por cento" é abre-te-sésamo da peta. Qualquer besteira é um índice na folha. Cocô na praia é cifra na prancheta. Miséria ou mesa farta, tudo é "bolha". Se crê no que um político prometa ou checa nos jornais, você que escolha! SONETO 681 ORGANIZADO [a Drauzio Varella] Do crime uma facção já se nomeia Congresso Brasileiro dos Bandidos, além daquela antiga entre os partidos: Partido Comunista da Cadeia. A tática da máfia, já apontei-a em muitos dos sonetos difundidos na marginalidade: os oprimidos não podem reclamar de boca cheia. Aos membros da quadrilha as instruções incluem o esculacho ao brasileiro, que engole porra e mijo hoje aos milhões. Os três poderes, já no cativeiro, terão nome mais próprio dos ladrões: Mandante, Executor e Justiceiro. SONETO 686 ESCALDADO [a Benedita da Silva] Acharam exagero quando falo, em verso, de sessões de linchamento, tortura e estupro em morros (Juramento, Turano, do Alemão, Borel), meu calo. Num deles ("Microondas" vão chamá-lo) o bando sacrifica em fogo lento (ou rápido, ao talante do momento) a vítima, o que aos manos é um regalo: Urinam-lhe na boca, vazam olho, mutilam pênis, língua, e por fim tostam o contra, o tira, o foca (nem escolho)... Agora, os que em meu verso não apostam que as barbas e o pudor ponham de molho, pois sabem os bandidos do que gostam! SONETO 690 APANIGUADO [a Supla] Há tráficos e tráficos: de droga, escravas, aves, armas, o escambau. Trafica até chapéu o lobo mau, e os dados são mais caros a quem joga. Poder não se decreta ou se revoga se for tão clandestino quanto o pau (também chamado de "terceiro grau") nas costas dos sem-teto ou dos sem-toga. Contudo, é "de influência" o mais batuta dos tráficos, pois dele quem governa depende, mais que o voto, a armada luta. Faz tempo, desde os idos da caverna que o macho humano faz da esposa puta por uma promoção na vida eterna. SONETO 694 ANTECIPADO [a Vicentinho] Um dia a humanidade, em meio ao lixo, à fome, ao desemprego, perde a prosa. De tão precária e superpopulosa, nivela-se ao chacal, se iguala ao bicho. No topo da barbárie paira o nicho da nata dominante, impiedosa. Dos pobres o patrão, que o fel lhes goza, exige a chupetinha no capricho. Nem estabilidade, nem direitos protegem o empregado. Só lhe resta chupar, e são migalhas seus proveitos. "Escravo" está gravado em cada testa. Têm pão e trampo os menos imperfeitos. Poeta não, pois para nada presta. SONETO 698 SABATINADO [a João Pedro Stedile] Espelha-se o oprimido no opressor e vítimas aprendem com carrascos. Que o digam terroristas, como os bascos, ou servos de Nabucodonosor. Amor sempre se paga com amor, mas outro é quem sucumbe sob os cascos, em vez do cavaleiro. Menos ascos desperta quem desforra, mas mais dor. O caso dos judeus na Palestina é típico: descontam na Intifada o gás com que o nazista os extermina. O algoz francês, na Argélia rebelada, aplica o que a Gestapo inventa e ensina, até que a Resistência a dissuada. SONETO 705 PECHINCHADO [a Luís Fernando Novoa Garzon] Comércio entre nações não tem acordo que seja de interesse a cada parte. Quem pode mais garante o que lhe farte e para o menos forte exibe o lordo. O lado americano quer que o gordo bocado lhe pertença, e só reparte com outros seu refugo e seu descarte, mas isca desse tipo eu cá não mordo. Agora nos impingem a tal ALCA, balela disfarçada de franquia que menos favorece que desfalca. Não basta o que depena e o que tosquia da gente quem nos pisa a cara e calca a sola, e inda esse gringo quer que eu ria? SONETO 730 ESCULACHADO [a Ferrez] Não "seje" "inguinorante"! Nunca foi "ansim" que algum plural se "prenunceia"! "Nós vai" não é sintaxe que se leia! Talvez "a gente vamos" melhor soe... Você só faz poema que destoe! Seu tênis pega mal calçar sem meia! Falar de boca cheia é coisa feia! Não coma em casa alheia feito um boi! Silêncio! Tenha modos! Mais respeito! Se enxergue! Dobre a língua! "Teje" preso! "Percure" seus "dereitos"! Dói? Bem feito! E o "mano" escuta, atônito e indefeso, razões para, se autor, não ser aceito, e, como cidadão, sofrer desprezo. SONETO 747 DA MONSTRUOSIDADE Remédio adulterado ou falso é o caso mais típico da humana hediondez, pois, quando é contra o câncer, se não fez efeito, não se tira mais o atraso. São tantas as notícias, que me arraso e irmano ao desespero do freguês descrente dum colírio que talvez lhe cause uma cegueira a curto prazo. Opera a catarata e a gota instila o otário no seu olho, mal sabendo que aquilo é merda pura na pupila. Mengélico, o falsário ri do horrendo destino da cobaia, e outras na fila aguardam pelas trevas que estou vendo. SONETO 748 DAS TROUXAS DOS TROUXAS Um bando embandeirado dos sem-teto ocupa um edifício abandonado. Instalam-se as famílias. Lado a lado, convivem rosto e pé, rango e dejeto. Cubículos estão onde o seleto e vasto condomínio foi lembrado. Até o momento ausente, agora o Estado se mexe, cerca o prédio, aflito, inquieto. Os novos moradores barricada constróem, se entrincheiram e resistem até que o hostil bloqueio os dissuada. Por fim seus dados deixam que se alistem na fila das promessas vãs, e cada sem-teto sai sem rumo. Outros assistem. SONETO 754 DO PRATO RÁPIDO Agora unificados, movimentos que lutam pela causa mais urgente se juntam, desde a Liga do Indigente ao Grupo dos Alcoólatras Sedentos. Visando o que se encaixe em seus intentos, convocam toda a mídia pra que atente: quem como "socialista" fala, mente, e o povo quer da Esquerda outros quinhentos. Sem-isso, sem-aquilo, quem não tem telhado ou chão de graça se aproveita: na conta pede um crédito também. É dos sem-cerimônias minha seita e, em vez de salvação e paz no Além, manjares cobra já, como a Direita. SONETO 760 DA BOLSA ESCROTAL Estranho monstro informe, esse Mercado! A mídia já cunhou-lhe cada termo que indica quando é são e quando enfermo, se vai ter um chilique ou sente enfado. "Eufórico" se diz se está agitado. "Nervoso" se acha a Bolsa um local ermo. Jamais tal exagero há de fazer-mo simpático ou, no mínimo, chegado. Estou cagando e andando se ele oscila no "humor", se anda "otimista" ou se "reage" ao peido dum magnata ou se outro estrila! Que foda-se o monstrengo e alguém se engaje a sério contra o bicho e que repila seu jogo, mais sacana que um Bocage! SONETO 772 DA AGREMIAÇÃO Um bando de estudantes, poucos, pelo alcance da entidade que os congrega, conspira, no porão dalguma adega, mas contra outro porão: do pesadelo. Durante a ditadura, quem tem zelo por certas liberdades e a fé cega na lei e no direito acha a refrega legítima e ao tirano quer prendê-lo. Levar o ditador aos tribunais por crime de atentado à humanidade é a causa que nos jovens vinga mais. Se acaso o esconderijo a tropa invade, detém alguns "moleques", culpa os pais, e abafa, em vão, o anseio sem idade. SONETO 784 DA ESMOLINHA No jogo democrático, um imposto jamais nos foi imposto: no começo alega-se que a vida não tem preço e taxa, ao se criar, não é por gosto. Saúde, para os pobres, não tem posto decente, que dirá se convalesço de grave operação! E sem tropeço aprovam a "exceção" de limpo rosto. O que era "provisório" se prorroga, aumenta em proporção e nada vai bancar o curativo, a maca, a droga. Vai tudo para o erário, donde sai roubado, enquanto o povo, otário, roga: "Senhor! Nosso pãozinho hoje nos dai!" SONETO 785 DA PRISÃO ABERTA Menores rebelados, na cadeia que deve ser "modelo", um monitor retêm como refém. Gritos de dor misturam-se ao furor que o fogo ateia. O inerme carcereiro tem a veia mais grossa do pescoço aberta: a cor do sangue derramado vai expor a cena na TV por hora e meia. Humanos têm direitos quando são bandidos: se menores, mais ainda. A vítima do crime chora em vão. E quanto ao monitor, que ali se finda na extrema hemorragia, a sugestão de dar-lhe um bônus póstumo é bem-vinda. SONETO 788 DA MORTALIDADE ENVERGONHADA Criança, quando morre, se esparrama no rol das estatísticas da ONU. O pai, mal recebido o magro abono, já crê que seu salário é dinheirama. Bandido, quando dorme, nem reclama do chão, cujo colchão nunca tem dono. O preso, quando caga, não tem trono e apanha se fizer pipi na cama. Adultos são tratados como bobos e velhos como bichos no país que entrega o povo como gado aos lobos. Se exato paralelo inda não fiz, direi que, em tal nação, aos homens probos é feio tirar ouro do nariz. SONETO 793 DA ESQUINA INESQUECÍVEL Um centro de convívio nos convoca em todo itinerário, noite e dia. Alguns o denominam "padaria". Aos íntimos, atende por "padoca". Café com leite e pão, sanduba e coca, sorvetes, bolos, frios por fatia: o bar ao mercadinho ali se alia e quando a nota é grande, ali se troca. O frango abre apetite e forma fila. Os queijos na vitrine a boca molham. Quem olha a torta exposta não vacila. Esnobes que um local mais chique escolham: de mim ela está próxima, e curti-la relembra o que meus olhos já não olham. SONETO 794 DO MONUMENTO AO MOMENTO São Paulo tem no centro um prédio antigo cercado de outros tantos, cuja porta lavrada em ferro e vidro não comporta a tanto transeunte dar abrigo. Janelas e sacadas mal consigo notar, graças às placas que põem torta e escura uma fachada quase morta no tempo, em fotos nítida comigo. Por dentro esse edifício inda conserva, nos lustres e no mármore, imponente aspecto, alheio ao caos que a rua enerva. Dali saiu e entrou já muita gente e cada vez mais pobre está a caterva que, sempre às pressas, passa-lhe na frente. SONETO 809 DAS MEDIDAS CIRÚRGICAS Não querem que se implante a simples pena de morte? Tudo bem! Não é preciso! Bastante é a solução que, como aviso, me chega agora à boca bem pequena: Dos crimes que mais duro a lei condena, o autor, sob o sadismo e sob o riso da vítima, tem olhos (e a juízo do algoz também os tímpanos) sem pena furados! E de quebra a língua exposta ao corte! Quero ver rebelião, motim, resgate, fuga, ou qualquer bosta! Ninguém pode acusar de "execução", "massacre" ou "morte" o Estado! Quem não gosta do tema é o Crime e os que a favor lhe são! SONETO 813 DA UTOPIA FISCAL Bolaram um imposto interessante na enésima reforma tributária que iria reduzir a "necessária" e enorme carga em cima do elefante. Assim como já existe um escorchante "imposto sobre o solo", uma arbitrária cabeça inventa a nova taxa e pare-a, de "imposto sobre o ar", por mais que espante! Se poluído está, a desculpa dada é que é pra melhorar a qualidade, e, quando puro, vira marmelada! Quem respirar demais paga a metade de quem menos consome, e em quase nada incide o que mais alto se arrecade. SONETO 815 DA TERCEIRA IDADE TERCEIRIZADA Velhinhos encontrados num asilo em triste condição, num promotor despertam choque e raiva. Em seu favor, a mídia mostra aonde chega aquilo. Doente, um chora e geme. Em vez de ouvi-lo, os outros, sem colchão nem cobertor, se espalham pelo chão. Paira o fedor de merda e mijo. O rato anda tranqüilo. A casa de repouso era, por fora, mansão toda cercada de arvoredo e tinha um ar do lar de quem lá mora. Depois de aberta ao público, dá medo e deixa uma impressão de que vigora em toda parte o quadro amargo... e azedo. SONETO 835 DA AVAREZA Pão-duro mesmo é o dono do segredo do cofre virtual, que só especula jogando com papéis, e cuja gula não cede nem do Inferno sente medo. Perverso, esse agiota escolhe a dedo a quem desfalca o lastro e o câmbio anula: se o quintal tropical que elege o Lula ou terras onde o sol se põe mais cedo. É tão cara-de-pau, que em casa cria a "agência" e impinge o "risco" dum país conforme dá na telha, a cada dia! Bem feito pra quem crédito lhe quis pagar! Bastava dar-lhe a nota fria, mandá-lo se foder com seus ceitis! SONETO 841 DO DILEMA A imprensa se diz séria, mas faz graça: se o crime assola as ruas, cobra ação enérgica de quem tem força à mão e exige "providências", brio e raça. De tanto ser cobrada, sai à caça, inerme, essa polícia à qual não dão recursos, só se lança acusação, e querem que milagres inda faça! Se cercam um bandido e este resiste, morrendo baleado, a mídia alega que aqui direito humano não existe. Jamais sabe o que quer, se faz de cega: não chega à conclusão se alegre ou triste ficar devia quem um ladrão pega... SONETO 875 PONTUAL Um ponto sempre aumenta, ali e além, quem passa informação neste balaio de gatos. Pode ser balão de ensaio um novo aumentozinho que aí vem. Boatos se espalharam de que cem por cento aumenta o mínimo de maio, mas quando a esmola é muita ali não caio, e creio que não sobe um só vintém. Porém se for de imposto e se anuncia que a conta vai ficar "ligeiramente" mais cara, já sei como ficaria: "Ligeiro", bem se entenda, é o prazo urgente daquele "reajuste"; já a quantia em si é cavalar, e se olha o dente! SONETO 885 AMBULATORIAL O plano de saúde, investigado, irregularidades tais revela que a comissão fiscal que o interpela perplexos deixa os membros do Senado. Um câncer tem papel de resfriado e lepra de alergia; erisipela registra-se, mas quem portava aquela moléstia usou remédio para o gado. Vencida a validade, as drogas são aos velhos receitadas: quando o efeito difere do normal, foi "rejeição"... Quem tinha, no seu físico, perfeito estado e ali passou, já não é são e caro, no hospital, lhe custa o leito. SONETO 887 PROFISSIONAL Se a puta de alto bordo está envolvida no escândalo dum banco ou duma pasta, o nome que na lama se lhe arrasta é sempre o de "modelo"! E quem duvida? Ninguém dirá que a dama é de "má vida", sabido o quanto ganha e quanto gasta aquela cuja cona não é casta mas posa como "honesta" e se apelida. A mídia cai no conto e adota o dito: "modelo" é o que se imprime em todo canto! Até lhe gaba alguém o modelito! Restava perguntar: se o charme é tanto, por que na passarela em que transito não vejo essa mulher nem seu encanto? SONETO 888 DESIGUAL Enquanto a puta nobre tem mamata, prestígio e mordomia, uma rampeira batalha na calçada a vida inteira e nem de faxineira alguém contrata. "Modelo" nunca a chamam e na lata a tratam de "piranha" e "pistoleira". Enquanto a outra mora na Vieira (que é Souto), a quenga velha lata cata. Vieira existem muitas: a Carvalho dos gays é passarela paulistana. Ali também tem classes o trabalho. Ao travesti de carro sobra grana. A pé, a bicha mixa tem caralho postiço, peito frouxo e falsa xana. SONETO 892 POLICIAL O expurgo no partido governante lembrou os velhos tempos da cultura estrita e stalinista, quando a dura e férrea disciplina era o talante. Nos tempos atuais, levar avante patrulhas desse tipo não depura: somente ampliará a nomenclatura que puxe o saco e sirva a quem a implante. Punindo os dissidentes, o palácio achou que corta as asas do protesto e aposta num exemplo que amordace-o. Bobagem! Logo um novo manifesto dá gás ao esquerdismo, e como um fáscio será lembrada a poda, a moda e o resto. SONETO 894 INFERNAL #2 Pegou fogo na casa dum banqueiro e o cara estava dentro! Junta gente que forma uma platéia bem na frente do ponto onde o incêndio é mais ligeiro. Enquanto tarda o carro de bombeiro, o povo se diverte! Mais contente ainda fica quando, de repente, o cara pede ajuda, num berreiro! Aplaudem e assobiam ante a cena das chamas envolvendo o velho avaro que grita e, da sacada, aflito, acena! Até que o chão desaba e engole o caro roupão, com velho e tudo, e da terrena vidinha leva um demo sem preparo. SONETO 895 NÃO-GOVERNAMENTAL O que é, o que é? Responda antes que eu gongue! Tem cara, ora de creche, ou de hospital, às vezes até banco, e o capital tem crédito que encurte, ora que alongue. Nem clube de gamão, nem pingue-pongue, nem mutirão, nem multinacional, nem fundo de quintal, nem estatal! Não adivinha? É simplesmente a ONG! Mais extra-oficial é o combativo estilo do Greenpeace ou dos anarcos, que enfrentam as potências com motivo! Meu caso é bem atípico: com parcos recursos conto, e da visão me privo, mas contra os baleeiros vão meus barcos! SONETO 897 COMERCIAL Naquele shopping center tem de tudo: revólver imitando os de verdade, carrinho-miniatura, anel que agrade ao dedo mais graúdo e ao mais miúdo. Sofá forrado em couro ou com veludo, vitrines exibindo, em variedade, o tênis do rapaz cujo pai nade em grana e que não gaste só no estudo. Da praça das comidas sobe um cheiro moderno e irresistível de batata assada ou frita, além do pipoqueiro. Dos óculos escuros, há o que bata no preço dum diamante verdadeiro, mas meu bolso com eles não empata. SONETO 898 PROMOCIONAL Nas ruas já não cabe tanto carro, e a indústria do automóvel continua querendo que inda caiba em nossa rua aquele último tipo em que me amarro! Vontade é o que não falta, mas esbarro no preço do veículo: insinua a falsa propaganda ser a sua faceta a "popular", mas cheira a sarro! Apenas porque o banco é reclinável ou vem na cor de burro quando foge, a loja já arredonda algum centavo! Comigo não tem dessa! Inda que enoje pisar num cocozinho, eis que desbravo a pé minha calçada, olhando um Dodge... SONETO 899 VEGETAL A safra foi recorde novamente, sei lá quantos milhões de toneladas, comida que alimenta até manadas humanas, pois também o gado é gente! No entanto, uma parcela mais carente do povo nunca come essas saladas lindíssimas e tão bem-temperadas que nem parecem vindas da semente! Vermelhos, os tomates são fartura enchendo nossos olhos pela feira, ao lado das montanhas de verdura! Não fosse achar na xepa alguma inteira banana ou mandioca, o pobre jura que a farta agricultura é brincadeira! SONETO 900 TREM DA CENTRAL Estradas comunicam os distantes rincões deste país inexplorado, ou seja, tantas vezes explorado que já nem ferrovia tem, como antes. A indústria do petróleo, em seus constantes avanços sem escrúpulos, tem dado apoio ao automóvel, mesmo usado, e o trem não interessa aos fabricantes. Lembrar do vagão-leito e do beliche fofinho, no balanço da cabine, é triste, e como dá saudade, vixe! Ainda que com carros não combine, prefiro o trilho! O asfalto que se lixe! "Fumaça" é o que meu trem melhor define! SONETO 901 TREM DA CENTRAL #2 Subúrbios das metrópoles destino são para alguns milhões que do trabalho retornam, num transporte velho e falho que, aos trancos e barrancos, toca o sino. Que sino, nada! Apito! Nem defino direito esse trambolho, um quebra-galho chamado de "trem-bala", pelo atalho que passa nas favelas, assassino. Vagões superlotados, cujo cheiro nos lembra o dos chiqueiros e onde a porta jamais fecha ao pingente passageiro. Mais um o "metrozão" sempre comporta, e quando alma não cabe, acha, ligeiro, no teto um surfe, até que tombe morta. SONETO 905 JUDICIAL Sofrera um inocente, tendo sido por várias testemunhas apontado como autor do homicídio do abastado gerente dum comércio de tecido. Sofrera na polícia, que bandido então o considera, e para o Estado culpado foi num caso já encerrado, embora muito pouco esclarecido. Sofrera pela imprensa, que divulga seu nome e foto e a vida lhe arruína, como quem foca a lupa numa pulga. Mas sofre ainda mais porque a "divina" justiça, já morosa quando julga, demora pra soltá-lo: é que "examina"... SONETO 920 CAPITAL Peguei no pulo quando a nota fria passava em plena feira um picareta: comprou ele um sacão de ameixa preta e quase um caminhão de melancia. Pagou e pediu troco; até queria moedas escolher numa gaveta da banca de pimenta malagueta na qual tem o feirante parceria. O dono da barraca desconfia e a cédula rabisca com caneta pra ver se a tinta espalha ou cores cria. Prevendo que o papel já se derreta, a nota troca na pastelaria e guarda um maço falso na maleta. SONETO 921 RESIDUAL No banco, uma velhinha tenta, em vão, sacar a sua aposentadoria: a máquina outra senha lhe pedia por causa de erro na digitação. A velha insiste, tecla, e o caixa não libera a grana, como se a quantia passasse duma parca economia e o número excedesse algum milhão. Já prestes a sair dali sem nada, de súbito ela vê que seu extrato acusa-lhe no saldo uma bolada! Aciona o caça-níqueis e, no ato, embolsa uma fortuna! Na calçada, porém, lhe toma a bolsa um moço ingrato! SONETO 923 ANTIGOVERNAMENTAL Estado organizado é como o Inferno! Assim acha quem vê no Executivo a síntese do abuso proibitivo e o oposto a tudo quanto for moderno. Se no Legislativo um simples terno distingue o ladrão preso do eletivo, Justiça é dos impunes um arquivo. Quem contra eles está diz: "¿Hay gobierno?" Porém mais radical que um anarquista sou eu, que outro poder contesto e enfrento: o arbítrio que me fez perder a vista. A Ele, o mais tirano e truculento, questiono e ponho em dúvida que assista aos vivos como um Pai, já que é um sargento. SONETO 929 PREJUDICIAL Na bolsa de valores se baseia um ânimo excessivo e uma "euforia", chamada de "otimismo", que irradia tentáculos na mais global aldeia. Mas quando alguém descobre que bambeia o frágil castelão de nota fria, o pânico se instala e, mal o dia desponta, está vazia a que era cheia. Fortunas se evaporam que nem fumo e sólidas empresas pro buraco lá vão, pra dar da crise só o resumo. Foi ontem, mas parece ser tão fraco na mente esse episódio, que eu espumo de raiva, tanto o assunto me enche o saco! SONETO 933 DITATORIAL Mal sobe o Tio Adolfo, um coro inteiro protesta contra o "Império do Milênio". Imagem logo faz: do Mal um Gênio, que o Mundo Livre torna prisioneiro. O povo da Alemanha alvissareiro enxerga-lhe o futuro. Quem condene-o idéia não fará que um oxigênio utópico respira cada obreiro. A guerra interrompeu todo o progresso tão rápido alcançado, e em breve o horror revela o genocídio, em filme expresso. Isola-se, por fim, o ditador, e cai, com seu regime, o mais confesso racismo contra a tribo e contra a cor. SONETO 938 PERIMETRAL Metrópoles têm área já tão vasta que quem nasce num bairro se desloca raríssimas vezinhas de sua toca até o centrão, tamanho tempo gasta! E quando, passeando, mais se afasta da zona em que batalha ou tem maloca, em vez de igual boteco ou da padoca constata que há castelo que contrasta! Mansões e clubes são para outro bico, de parques e avenidas bem suprido, enquanto o trem transporta o menos rico. Subúrbio só faz parte, desvalido, do mundo em que me crio e do qual fico saudoso, no destino e no sentido. SONETO 939 MUNDIAL Começa, por dá cá aquela palhinha, o mais global conflito, que, por anos a fio, confrontou os três tiranos tirando-nos dos eixos a vidinha. A terra inteira, exausta, que mal tinha saído doutra guerra, novos danos enfrenta, só por causa duns insanos governos de política daninha. Um monte de destroço em todo canto, milhões expatriados ou defuntos, em nome dum princípio sacrossanto! Se democrata é a voz de todos juntos, diríamos: nenhum valor é tanto que a guerra justifique, ou seus assuntos! SONETO 944 IRRACIONAL Não serve o terrorismo a causa alguma, pois nada se consegue só com bomba. Por mais que o justifiquem, ele tromba com algo, em nós, de humano, que à paz ruma. Ainda vale a espada mais que a pluma, mas mesmo em plena guerra a razão zomba de tanta atrocidade, e logo a pomba no bico leva quem detone e assuma. Na hora, um atentado causa dano moral e material, mas se reverte qualquer apoio lógico ao insano. Quem, louco, do inocente o sangue verte pensando que é "culpado", pelo cano põe tudo, sem que nada se conserte. SONETO 977 SOCIAL "Repercutindo" a festa de Madame, comenta o badalado colunista que tal ou qual dondoca fora vista vestindo um costureiro que bem chame. Fulano ou Fulaninho deu vexame trajando algo que entrou para uma lista dos dez deselegantes da revista de modas e fofocas mais infame. Só nisso pensa o rico: ser notado como se o rato não se misturasse ao rato e um boi brilhasse em meio ao gado. A merda que ele caga tem mais classe: não desce, gruda em tudo, mostra o lado humano e de seu dono ostenta a face. SONETO 984 GLOBAL Um "grande irmão" espreita toda gente a toda hora, até quando cagamos! Já não bastasse termos tantos amos, ainda um que não vemos se pressente! Previram que, por mais que o homem tente de vez se humanizar, só caminhamos no rumo da barbárie, e dos reclamos utópicos ninguém mais é carente! Robôs é o que seremos, não demora! Alguém nos mandará que de joelho fiquemos, e não é Deus que se adora! É o pé dum ditador! Em seu artelho tocamos com a língua, mas outrora lambíamos por bem; hoje, no relho! SONETO 985 CENTRAL Convergem atenções para a questão de mínima importância, enquanto vidas se perdem por banais balas perdidas ou por certeiros tiros de canhão. Discute-se se um ponto na inflação trará queda nas vendas dum Adidas, dum Nike ou dum Rainha, mas puídas estão as alpargatas do povão. Sapatos italianos ou de cromo germânico não cheiram nem perfumam o pé da peãozada ou do rei Momo! Ainda que tais taras não assumam, garanto que esses técnicos têm como parâmetro os chulés que se avolumam! SONETO 986 LATERAL Entrava uma empregada pela porta central do prédio chique e foi barrada: "Entrada de serviço é ali na escada!", informa-lhe o porteiro, cara torta. Em nada a "funcionária" se conforta sabendo que, na mídia, retratada esteve como "vítima", coitada, do "abuso", com o qual ninguém se importa. Elites se distinguem, nesta terra, por portas diferentes: uma enorme, que para uns abre e para os outros cerra. Em outra porta, para que se informe, a placa diz "Serviço", mas na guerra de classes é "Quem trampa aqui não dorme!"
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