TVez
Capítulo 5
Como se faz uma novela

Por Leila Míccolis*

(10/11/2003)


Curso Básico e Intensivo On-Line de Roteiro de Novela de Televisão - Teoria e Prática
c/ Leila Míccolis


Já que Brecht chamava o estilo de teatro que servia apenas para divertir a platéia de culinário, segue uma receita, já testada e aprovada, para você:
  • Ingredientes: um casal conflito de amor; um (ou mais) obstáculo; um (ou mais) rival; um (ou mais) aliados; tempero a gosto: comicidade, erotismo, belas paisagens, reversões de expectativa, suspense; como opção, acrescente um toque delirante (apenas uma pitada).
  • Para o recheio: uma cidade pequena (se for de época) ou grande (se for atual) ou uma fazenda (se for rural); habitantes com seus usos e costumes característicos (inclusive de fala regional)
  • Para a cobertura: um plot de sentimento (seja vingança, ódio, intolerância, conversão, rebeldia, etc.).
  • Tempo de preparo: de quatro a nove meses
  • Rendimento: Esta porção rende milhões de brasileiros
  • Modo de fazer: Corte a história em partes pequenas, misturando os ingredientes da massa e do recheio, com certa cautela na dosagem de todos os ingredientes (cuidado com a liga). Não bata no liquidificador. Cozinhe em fogo brando, mas, fique atento: há momentos em que é preciso fazer um cozimento mais rápido. Confeite com um final feliz (mesmo que seja uma felicidade relativa) quanto ao conflito principal. Sirva o prato artisticamente decorado, e não esqueça do vinho (que representa não só a embriaguez do momento, mas também o merchandise), à temperatura ambiente...
Provavelmente, de início, você vai "errar a mão". É natural, não desanime. Jogue fora a "gororoba" e comece tudo de novo. Ou aproveite a parte que está saborosa. Quanto mais você se exercitar, mais você irá pegando traquejo e desenvoltura. Primeiro faça uma story-line, que se constitui no resumo da história principal em 5 a 8 linhas; depois, conte esse parágrafo detalhadamente, em 15 a 20 páginas (a este texto dá-se o nome de argumento); por fim, trabalhe na sinopse, juntando as tramas paralelas, e finalizando com o rol dos personagens. Feito isto, registre e saia com sua sinopse debaixo do braço, ou melhor, saia com o arquivo pela Internet afora, inclusive sempre antenado com as novidades deste site da Denise, que traz muita oportunidade boa!
Duas dicas para você se lembrar na hora de fazer a sua sinopse televisiva: 1) não queira contar várias histórias paralelas ao mesmo tempo; narre uma, a principal, com as necessárias ramificações e entrecruzamentos. 2) A palavra mais importante em uma sinopse é o "mas": uma jovem ama um rapaz; mas a família não gosta dele, porque ainda é muito jovem; mas ela teima e diz que se casará assim mesmo; mas o pai morre repentinamente e para honrar os compromissos assumidos por ele a moça aceita casar-se com um homem rico e bem mais velho; mas não é feliz porque nunca esqueceu seu grande amor; mas o jovem acha que ela é falsa e quer vingar-se por ter sido abandonado; mas, para isso, precisa fazer fortuna também, para igualar-se ao marido dela; mas não consegue, porque não encontrou ainda seu caminho; mas um dia o acaso faz com ele se encontre com a sobrinha do marido da sua amada; mas quando ele sabe de quem se trata briga com ela, porque tem raiva do tio; mas... e por aí vai... Sinopse é um encadeamento de "mas ininterruptos", até o último capítulo... quando são solucionados todos os "poréns".

E-mail da quinzena, de M. Vilhena:
  • Você está sempre mencionando algum autor de teatro em suas crônicas e eu nunca encontrei em nenhum livro de roteiro de TV indicação de livros sobre arte cênica. Como sou um ator que também gosta muito de escrever, pergunto: você acha que ler obras de teatro ajuda a elaborar enredos para a televisão?
  • LM: Acho sim, com toda certeza. Aliás, foi justamente lendo o que Stanislavski escreveu para os atores que entendi mais rápido as sutilezas da narrativa teledramatúrgica. Em um dos seus livros, "A Construção de um papel", ele dá uma aula impressionante de roteiro, quando avalia os fatos da personagem Sofia, na peça "A Desgraça de ter espírito", de Griboyedov. Lembro-me que ele dizia que, para lidar com calma e firmeza com o pai dela - um burocrata, um senhor de escravos, um tirano - e vencê-lo, Sofia só poderia ser... uma heroína. Em uma única frase ele definiu muito bem a complexa articulação entre dois personagens principais, relação esta que moldará suas ações e definirá seus padrões de comportamentos. Daí porque em meu curso de roteiro on line, eu sempre indico obras teóricas de teatro: não que sejam leituras imprescindíveis, mas acho-as importantíssimas, uma vez que esta interconexidade pode auxiliar no exercício da prática de outros gêneros literários, desde a criação do diálogo até a estrutura final da sinopse. Além do mais, nunca devemos nos esquecer de que a dramaturgia ocidental originou-se do teatro grego e baseou-se na Poética de Aristóteles. Portanto, há mais ligações entre poesia, teatro e tevê do que a princípio imagina a nossa vã filosofia.

Cenas da próxima crônica, na 2ª quinzena de novembro:
Cap 06: O dia em que Florinda Bolkan trabalhou em uma minissérie brasileira

(*) Poeta, escritora de cinema, teatro e TV ("Pais Problemas", "Rainha da Vida", "Olho por Olho", "Kananga do Japão", "Barriga de Aluguel", "74.5" (versão internacional), "Mandacaru", entre outros, ex-roteirista da Rede Globo e da TV Manchete.
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