"Yo no nací para que hubiera un hombre más en el mundo." Não só a obra mas também a vida de Glauco Mattoso confirmam essa predestinação do poeta para a singularidade, mesmo que, no caso de sua obra, seja ela resultante da mistura de diversas influências. Afinal, como diria o próprio poeta, "original é quem plagia primeiro". "Repetir merdas já cagadas e convencer as pessoas que as fez pela primeira vez: nisto consiste a arte de escrever." "O poeta é um ladrão de sua fortuna, de seu tempo, de sua liberdade, de sua saúde e do pensamento alheio." Criatividade e originalidade, aliadas à métrica camoniana e à herança de Gregório de Matos, resultam em sonetos tecnicamente perfeitos impregnados de pós-modernidade. Dentro desse contexto, utiliza temas transgressores como escatologia, taras, homossexualismo, sexo sujo, para compor uma obra chique enquanto chula, e chula enquanto chique, com traços fortemente filosóficos. "El leer hace completo al hombre. El cagar lo hace perfecto." No entanto, alguns críticos o acusam de ser repetitivo, ao que o poeta responde: "Dizem que disse um crítico que tenho dois vícios poéticos: a repetição e a repetição. Não digo o contrário. O poeta que repete coisas por outros escritas, faz bom uso da poesia, porque olha para trás, para seus antepassados. O poeta que repete a si mesmo realiza sua obra porque olha adiante, para a posteridade. Desse modo, a repetição do vício se transforma em virtude." No Jornal Dobrabil, assumindo identidades diversas, como Pedro, O Podre, García Loca, dentre tantos outros personagens, além do próprio pseudônimo do autor, Glauco dedicou-se a paródia, com muito bom humor e inteligência incomum, numa verdadeira anarquia, como bem descreveria Artur da Távola: "O Jornal Dobrabil é mesmo uma caixinha de surpresas. O que mais me impressionou foi a total irresponsabilidade pelas matérias ou não. Tudo parece apócrifo. Você e Pedro assinam como próprias citações alheias, dão como alheias citações próprias e, quando indicam o verdadeiro autor, adulteram suas palavras, enxertando termos que jamais usou. Isso é que é dar ao Diabo o que é de César e a César o que é de Deus. E viva o anarquismo!" Já no livro Manual do Pedólatra Amador, edição dos anos 80, quando ainda não havia a expressão podólatra como designadora de quem tem fetiche por pés, o autor faz uma espécie de autobiografia, contando diversos episódios inusitados e marcantes para a formação de sua personalidade e para a construção de sua obra, como a violência sexual sofrida na infância, o período em que morou no Rio, o momento em que assume sua homossexualidade, dentre tantos outros. Infelizmente, o livro está esgotado e aguarda-se, ansiosamente (por favor, editores!), a reedição, revista e ampliada, pronta e intitulada Manual do Podólatra Amador. Sua trilogia de sonetos (1999), escrita em tempo recorde, e o livro Panacéia (2000), são um divisor de águas na obra de Glauco, revelando um autor angustiado pela cegueira, obrigado, por isso, a interromper precocemente sua promissora e bem-sucedida carreira como poeta visual, e forçado ao isolamento social, à solidão e ao preconceito. Seu humor agora é negro, ácido, violento. O poeta faz do soneto uma metralhadora giratória, com a qual atira pra todo lado, contra inúmeras vidraças invisíveis (ou não), contra a política, os opressores, as injustiças sociais, contra a discriminação que sofre enquanto cego e contra a discriminação a todas as minorias. Apesar de toda essa amargura, o Glauco que conheci por e-mail, por telefone e depois pessoalmente, é uma pessoa ativa, intensamente produtiva, educadíssimo, aberto, e ultra-moderno. Como diz Millôr Fernandes, ele "sabe exatamente tudo". Por trás da violência e tristeza de seus versos, está a fragilidade (e até uma certa doçura) de quem enfrenta infinitas dificuldades como deficiente num país de terceiro- mundo. Um pensador além de seu tempo. Um autor para ser entendido nas entrelinhas. Acima de tudo, Glauco Mattoso é um exemplo de superação dos limites humanos e da dor e prazer de existir.
BIOGRAFIA Bibliotecário, funcionário aposentado do Banco do Brasil, escritor, poeta, filósofo, "maldito", intelectual, humorista, ensaísta, cronista, cego, homossexual, podólatra, aficionado por pés masculinos, por nipônicos e gordinhas, punk, conhecido nos anos 70 como Pedro, O Podre, Glauco Mattoso nasceu Pedro Silva, em 1951, na cidade de São Paulo, com glaucoma congênito, perdendo a visão gradativamente e de forma irreversível, apesar das inúmeras cirurgias a que se submeteu durante sua vida, ficando completamente cego aos 40 anos de idade. Obteve fama no meio intelectual nos anos 70 e 80 após a publicação artesanal de seu Jornal Dobrabil, uma paródia à grande mídia, e após a gravação da música Língua, por Caetano Veloso, a respeito de sua obra. Data dessa época o culto em torno de Glauco por nomes como Millôr Fernandes, Cacaso, Paulo Leminski, Augusto de Campos, Décio Pignatari, dentre tantos outros escritores, poetas e intelectuais. Após a cegueira, em 1995, passou algum tempo distante da literatura, produzindo CD's para uma gravadora de rock independente, retomando a atividade literária em 1999, após comprar um computador falante para cegos (desenvolvido pela UFRJ). Isso foi possível graças ao dinheiro ganho com o Prêmio Jabuti pela tradução, em conjunto com Jorge Schwartz, do livro "Fervor de Buenos Aires", de Jorge Luis Borges (1998). Desde que obteve a máquina, escreve compulsivamente, intensamente. Hoje, aos 52 anos, tem por companheiro Akira e mora no mesmo quarteirão desde 1983, em São Paulo. Não sai sozinho de casa, detesta usar bengala e é um inconformado não só com sua condição de cego, mas com a condição do cego no Brasil. Nos Estados Unidos, Glauco é cultuado no meio acadêmico e intelectual, desde que sua obra começou a ser traduzida, nos anos 80. Em 2000, o americano Steven Butterman defende a tese "Brazilian Literature of Transgression and Postmodern Anti-Aesthetics in Glauco Mattoso". Em 2002, páginas do Jornal Dobrabil integram o número de maio da revista americana Art In America. Marco histórico para o reconhecimento da arte brasileira no exterior, ela traz a primeira mostra internacional de poesia visual brasileira, consistindo numa ampla cobertura e análise sobre a exposição Brazilian Visual Poetry . Além de Glauco, integram a mostra nomes como Arnaldo Antunes, Augusto de Campos, Décio Pignatari, Haroldo de Campos, Hélio Oiticica e Millôr Fernandes, dentre outros. A seguir, o primeiro soneto que Glauco enviou-me em 16 de abril de 2002, e, na seqüência, soneto que o poeta dedicou a mim, em 15 de junho de 2003: CONTO DOMINGUEIRO [Soneto 2.438] Contava o jornalista ao jornaleiro dos podres dos políticos a lista. Contava o jornaleiro ao jornalista quem é, no quarteirão, mais fofoqueiro. Na banca, em meio a fotos de traseiro, manchetes dão: POLÍCIA NÃO TEM PISTA; Enquanto se folheia uma revista, os dois passam a limpo o galinheiro. Um cego, bengalando, anda por perto. "Aquele é que é fodido!", aponta o foca. Já longe, mas de ouvido bem aberto, o cego escuta os risos e a fofoca. Consigo pensa: "Até que ele está certo...", mas, lúcido, por ambos não se troca. SONETO 2.691 PERFORMADO [a Denise Duarte] Maior fanfarronada, mais lorota que a tela traz nas séries, ninguém cria. Diálogos são falsos, como é fria, fajuta, de três dólares a nota. Exemplo é o que, arrogante, o bruto arrota: "Eu bem que sua língua arrancaria se já não precisasse dela, um dia, a fim de manter limpa a minha bota!" Na prática, o vilão só se desmente, pois nunca tal ação se concretiza. Se eu fosse o roteirista, ah, minha gente! O ator que faz a vítima, de brisa viver não mais podia! Convincente, lambia em cena a sola que lhe pisa! (Texto extraído do livro ainda inédito "Glauco Mattoso, O Poeta da Crueldade", de Denise Duarte. Rio de Janeiro, junho de 2003)
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