GLAUCO MATTOSO
UM POETA PAULISTANO

Glauco Mattoso

(18 de setembro de 2003)


Além dos (sempre parciais) rótulos de "poeta da crueldade", "herdeiro de Gregório de Matos" ou poeta escatológico, fetichista, bocagiano, punk, etc., GM patenteia-se topograficamente paulistano em alguns de seus mais de mil sonetos, um deles (421) experimentalmente redividido em dois dísticos, dois tercetos e um quarteto: SONETO 69 ARQUITETÔNICO (1999) Na década de 20, a Paulicéia só tinha prédio baixo e casarão. Até que um visionário, o tal barão, de erguer o arranha-céu foi tendo a idéia. O prédio Martinelli era, à européia, no topo uma mansarda e, desde o chão, somava uns trinta andares de amplidão: São Paulo é Nova Iorque, outra colméia! Olhei o panorama lá de cima. Me vi cosmopolita e descendente. Fiquei fã do edifício, uma obra-prima. Mas fui perdendo a vista e, de repente, achei-me no porão, sem luz nem rima, aos pés do transeunte indiferente... SONETO 218 AO MARTINELLI (1999) Por mim, quase a barão foi promovido o tal comendador que o projetara. O caso é que o gigante é jóia rara, ao combinar quadrado com comprido. Por outras altas torres escondido, já foi obra a que nada se compara. São Paulo teve nele nova cara, após moderno estético ruído. Janelas empilhadas, vis à vis. Mansardas européias de castelo. Mistura de Manhattan com Paris. Já sem poder rever, por ele zelo. Ao menos na memória, sempre quis gravar esta paixão que martinelo. SONETO 794 DO MONUMENTO AO MOMENTO (2003) São Paulo tem no centro um prédio antigo cercado de outros tantos, cuja porta lavrada em ferro e vidro não comporta a tanto transeunte dar abrigo. Janelas e sacadas mal consigo notar, graças às placas que põem torta e escura uma fachada quase morta no tempo, em fotos nítida comigo. Por dentro esse edifício inda conserva, nos lustres e no mármore, imponente aspecto, alheio ao caos que a rua enerva. Dali saiu e entrou já muita gente e cada vez mais pobre está a caterva que, sempre às pressas, passa-lhe na frente. SONETO 280 A RAMOS DE AZEVEDO (1999) Não é do Martinelli seu desenho, mas fez duma cidade a felizarda: São Paulo deve a ele ter mansarda. Por isso aqui render tributo venho. Palácios e mansões do seu engenho saíram. No seu tempo foi vanguarda, embora alguns sustentem que retarda da vaga modernista o desempenho. Faz da Casa das Rosas a revista, a síntese daquela arquitetura, francesa, neoclássica, paulista. Talvez alguma dose de mistura, mas não há forma pura que resista à miscigenação, nossa feitura. SONETO 219 AO PARQUE (1999) Oásis de verdura no concreto. Canteiro de graminha na calçada. Assim parece o parque, da sacada da típica babel beirando o teto. Em meio ao quente caos, um lugar quieto. Pelo Ibirapuera, a caminhada. Rente ao Jardim da Luz, uma fachada, projeto inacabado do arquiteto. Trianon, Aclimação, a Cantareira. Transpira uma metrópole traída. Em tudo tem que ser sempre a primeira! Na pura poluição, vive hoje a vida que um dia viveria a Terra inteira! Não há pioneirismo sem saída... SONETO 220 AO VIADUTO (1999) Pelo Anhangabaú, monumental, na perpendicular se alarga o Chá. Está o Santa Efigênia mais pra lá, como uma torre Eiffel horizontal. Divide-se a cidade em chão normal e um outro patamar, que a cobrirá do feio centro velho ao Jaraguá, emaranhando pontes num varal. Será passar por cima sua sina? Que raio de cidade sem vazão, escrava do motor a gasolina! Mas quem só fala mal não tem razão, pois sob o viaduto já germina uma população de pé no chão. SONETO 221 AO METRÔ (1999) Vagão de um olho só, rosto ciclópico. Ao viaduto o túnel faz espelho. Se caranguejo é o trânsito, em vermelho, ao Capricórnio irá o metrô do trópico. Ter toda a malha urbana é quase utópico. Já crer no velho trem é bom conselho. O trilho subterrâneo inda é fedelho. No pico é a ferrovia efeito tópico. Em luxo, estilo e astral, ninguém compara uma estação da Luz ou Júlio Prestes à Sé, ao terminal do Jabaquara! Mas a cidade ostenta novas vestes. Não é mais européia a sua cara, pois nela pisam todos os nordestes... SONETO 421 PANORÂMICO (2000) [musicado por Chico César] Meu quadro de São Paulo é o duma ilha que quanto mais se atulha mais brilha. É vasta e de longe se avista, mas de perto tem a face dupla, múltipla, mista. Quem topa suar tem campo à pampa, pois Sampa trampa do sol ao luar. Na avenida Paulista trombadinha quando nasce contrasta com torres, contrista. No centrão a janela faz pilha, muralha ante a gentalha maltrapilha. SONETO 501 URBANIVERSADO (2002) Feliz aniversário, Paulicéia! Do Pátio do Colégio ao infinito, o imenso não é feio nem bonito: darás de megalópole uma idéia? Tens cara de africana ou de européia? Tens árvore de figo ou de palmito? Tens catedral de taipa ou de granito? Tens flor? É rosa, hortênsia ou azaléia? Te tornas, ano a ano, mais mudada: quem chega não se encontra com quem parte; a rua não se avista da sacada. Poetas não têm jeito de saudar-te; tu, pois, que cantes, antes de mais nada, que és obra, em fundo e forma, in progress: arte! SONETO 532 URUBUEIRO (2002) Cortavam tuas águas belo bosque, chamado de Dom Pedro, antes de entrares no limpo Tietê, rente a pomares, caramanchões, coretos, a um quiosque... Não falta, agora, entulho que se enrosque nas tuas pedras podres, e teus ares venenos são, a ponto de nem dares abrigo ao rato audaz que em ti se embosque... Se esgoto a céu aberto é o Tietê, nem isso és tu: tens teto sobre ti! Teu leito, lodo grosso, mal se vê... Reflexo da tristeza em que caí, o mais saudoso adeus que alguém te dê, Tamanduateí, te mando aí! SONETO 395 REVOLUCIONÁRIO (2000) Em trinta e dois, São Paulo se valeu da causa do direito e da justiça e pôs-se em armas, dando, nessa liça, lição de civilismo em pleno breu. Naquele tempo, o exemplo era europeu: Países açougueiros de carniça pilhavam e poupavam na Suíça o erário do operário e do judeu. Maior revolução não seja aquela! Dez anos antes, foi também paulista uma semana apenas, mas deu trela. Quer constitucional ou modernista, o fato é que São Paulo remodela, passando os passadistas em revista. SONETO 110 PAULOPOLITANO (1999) Alguns passos além do Marco Zero a catedral da Sé, quase acabada, resume em neogótico a salada humana e desumana onde me gero. No leste nordestino já fui vero bambino da rural Vila Invernada. Nasci, porém, na Lapa, que é pegada à toca dum poeta que é pantero. Elíseos, Campos, Brás, Bixiga e Moóca, Belém, Limão, Carrão, Pari, Moema: Qual minha casa, cova, taba, toca? Não fosse eu paulistano tão da gema! Na rua Lavapés me desemboca a língua, que ali lave, goze e gema! SONETO 352 DESERTADO (2000) [musicado pela banda 365] Da Terra cidadão, mas Brasileiro. Da Pátria amada ufano, mas Paulista. Isento Bandeirante, mas bairrista. Quiçá cosmopolita, mas caseiro. Ninguém é universal o tempo inteiro. Errante, minha bússola equidista do inferno nordestino ao céu sulista: Nem astronauta sou, nem marinheiro. Turista só desfruta da viagem por causa da visão. Se for um cego, qualquer lugar será a mesma paisagem. Na vasta escuridão onde navego fronteiras inexistem. Sem miragem, tão só por ser terráqueo me segrego.

Glauco Mattoso
[18 de setembro/2003]

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