TVez
Capítulo 2
Da primeira novela a gente não esquece

Por Leila Míccolis*

(21/09/2003)


Curso Básico e Intensivo On-Line de Roteiro de Novela de Televisão - Teoria e Prática
c/ Leila Míccolis


Eu estava nervosa, uma pilha. Embora ninguém colocasse nestes termos, eu sabia perfeitamente que aquele seria um teste, não para passar de ano, mas para mudar o curso do rumo de minha vida, talvez definitivamente. Pela primeira vez eu ia escrever para a televisão, com créditos e tudo na tela. Isto, caso fosse aprovada.
Lá fomos nós: eu e meu medo. Tocamos a campainha, Silvan Paezzo nos atendeu, com olhar sisudo, convidando a entrar; finalmente, eu estava diante do "monstro sagrado" da minha juventude. Eu tinha lido todos os seus livros críticos, violentos, entre fascinada e horrorizada, e, até hoje, amo-os profundamente. Também foi dele a única novela que acompanhei, antes de escrever para a TV. Lembro-me de que Juca de Oliveira fazia greve de fome para sensibilizar a heroína, sua bem-amada, e, depois de conseguir tê-la em seus braços, com tanto sacrifício, ele morria no último capítulo, vítima de anemia. Só mesmo um grande autor seria capaz de uma ousada e perigosa reversão de expectativa desse tipo. Pois bem, era diante dele que eu estava...
Em poucas palavras Silvan me colocou a par da situação: precisava de uma colaboradora para acabar "Mania de Querer" (1987), pois, por problemas internos, mais da metade do elenco tinha saído; precisava então refazer a sinopse, pois a novela era praticamente outra, com tanta mudança. Perguntou-me se eu tinha experiência em TV e respondi que só fizera um Caso Verdade, comprado pela Globo, através de Henrique Martins, mas que o seriado não tinha sido exibido, por causa da censura prévia. Ele foi durão: "- Saber que você escreve bem, eu sei, todos sabem; mas, como não li nenhum roteiro seu, preciso ver seu estilo. Me escreve aí seguinte cena: uma mulher bonita está malhando, sozinha na academia, quando entra o ex-namorado, agarra-a e transa com ela à força". Pensei: "ele tinha que começar logo com um estupro?" Lembrei-me, porém, da "Época dos tristes", "Diário de um transviado", "Av. Copacabana 389 apt 801", "Santa Rosinha do Mangue", "Madame Satã" e achei coerente, fazia sentido.
Caprichei então, carreguei nas cores para ser tão realista e forte quanto o "Mestre". Quando acabei, ele leu, franziu o cenho e disse: - "Bom o texto, mas muito pesado, principalmente partindo de uma mulher"... Senti uma incômoda sensação de "déjà vu", pois já ouvira muito a variante desta frase com relação a minha poesia. Só que, partindo dele, eu não esperava. Rapidamente levantei-me para ir embora, achando que todas as minhas chances tinham ido por cena abaixo, e lhe respondi, de imediato: - "Desculpe, Paezzo, eu não sabia que você queria um estupro leve". Ele me olhou como se quisesse sorrir e me elogiou, do seu jeito seco: - "Está contratada".
Até hoje não sei se a decisão dele foi motivada pelo que escrevi ou pelo modo com que reagi. Sei que nos entendemos bem. No último dia de trabalho, levei seus livros e pedi que os autografasse. Os exemplares estavam velhos, amarelecidos, com a capa quase despencando, e cheios de anotação. Surpreso, ele folheou-os: "- Esses realmente foram muito lidos". Confirmei: "- Foram. Você pra mim é um dos melhores romancistas deste país". E complementei logo, já que eu sabia que ele não me perguntaria, mesmo que desejasse muito saber a resposta: "- Não lhe falei isto antes, porque eu não queria que minha admiração interferisse na nossa convivência profissional, nem que você pensasse que eu estava te elogiando por puxa-saquismo". Ele emocionou-se. Sei disso porque, pela primeira e única vez, ganhei dele um sorriso. E este, eu tenho certeza, não foi pelo que eu lhe dissera, mas pela capacidade, que sempre tive, de surpreendê-lo.

Mail da quinzena:
Carlos Roberto de Freitas me faz duas perguntas muito interessantes:
  • "Você acha que a gente aprende a escrever através de algum curso?"
    • LM - Não, escrever a gente aprende na escola primária... rsss... Brincadeiras à parte, creio que, dependendo do curso, aprende-se a criar sim, a entender não só o processo criativo, como também a sua estrutura. Eu costumo sempre dizer que se tivesse livros - como se tem hoje em dia - ou orientações seguras na época em que comecei a me especializar nesta área, teria quebrado bem menos a cabeça e evitado muitos becos sem saída.
  • "O que fazer para escrever para televisão, me parece que há mais escritores do que horários de novela. É isso ou estou errado?"
    • LM - Você está certíssimo. Há realmente muito mais desempregados do que vagas... Mas não adianta desanimar. Na minha opinião quem quer trabalhar em teledramaturgia precisa: 1) entender do riscado (inevitável o jogo de palavra), ou seja, saber o básico de formatação, cenas, ângulos de câmeras, macro e microestrutura, storyline, enfim, ter pelo menos um bom conhecimento teórico, porque é muito mais fácil e prático aprender o essencial antes da novela no ar (e também é uma preocupação a menos); 2) não desistir do seu intento, dispondo-se, inclusive, a trilhar outros caminhos, sem perder de vista a meta televisiva: uma boa comédia de teatro pode abrir portas para um sitcom, por exemplo. Escrever é exercício válido, qualquer que seja o gênero, nunca é perda de tempo.

Cenas da próxima crônica, na 1ª quinzena de outubro:
Capítulo 3: Bastidores, uma novela à parte.

(*) Poeta, escritora de cinema, teatro e TV ("Pais Problemas", "Rainha da Vida", "Olho por Olho", "Kananga do Japão", "Barriga de Aluguel", "74.5" (versão internacional), "Mandacaru", entre outros, ex-roteirista da Rede Globo e da TV Manchete.
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