TVez
Capítulo 1
Mixagem Literária
Por Leila Míccolis*
(08/09/2003)
No primeiro debate que fiz na minha vida, em 1982, na Universidade Federal do RS, quando ainda não tinha escrito, mas já estava em meus planos trabalhar para a televisão, me perguntaram à queima-roupa: - "você tem um trabalho cultural tão bonito, incentivando os autores novos, como fica tua cabeça querendo entrar para a TV?" Respondi: "a minha cabeça fica muito bem, a sua é que não sei como ficará quando souber que este trabalho, tão nobre e meritório aplaudido por você, é custeado pelas histórias em quadrinhos que eu escrevo para revistinhas eróticas, de sacanagem"...
Passou-se o tempo. Há uns três anos, no final de outra palestra minha, uma mulher na platéia veio com esta outra pérola: - "Corre, no meio, que você foi uma grande poeta antes de entrar para a televisão. A partir daí, parou completamente. O que é que você acha disso?" Um grande preconceito, lógico. Pelas minhas contas tenho vinte e cinco livros individuais (contando um inédito), sendo que apenas nove foram anteriores à TV, ou seja: a maior (e melhor) parte de minha obra foi escrita simultaneamente às novelas. Acontece que as pessoas continuam achando que poeta é um ser à parte, que não pode fazer outra coisa a não ser poesia para não descaracterizar sua atividade - como se "ser poeta" se restringisse a escrever versos, ou como se a ação poética não fosse infinitamente mais ampla (desde a Grécia antiga ela estava visceralmente ligada ao teatro, e, portanto, ao drama, à dramaturgia, ao encadeamento narrativo, tudo o que usamos na telenovela). É interessante como a TV assusta os intelectuais com a possibilidade de perecerem em suas garras...
O meu primeiro trabalho comprado pela televisão foi para a Globo, em 1983, quando o diretor Henrique Martins (agora no SBT) quis levar ao ar o "Pais Problemas", meu caso verdade sobre inseminação artificial, que não foi possível, naquela época, ser exibido no horário das seis, e recebeu o veto da famosa censora da época, D. Solange - tenho até hoje os recortes do O Globo comentando a respeito. Responsável pelo núcleo, Henrique Martins, em uma decisão de criatividade ousada, selecionou minha história, em cinco capítulos, e, na entrevista que teve comigo me perguntou de onde eu tinha já a "experiência televisiva". Respondi-lhe que não sabia, pois era meu primeiro roteiro. E ele então me indagou, tentando encontrar a solução do enigma: você trabalha com o quê, atualmente? - Escrevo para revistas em quadrinhos. Então ele concluiu, sorrindo: - Está explicado. Minha primeira lição, todos os gêneros estão interligados, e não há um "melhor ou pior" do que o outro, ou caímos na definição aristotélica da Poética, em que a Comédia seria espécie "menor" que a Tragédia, até por retratar não o que a humanidade tem de nobre, mas o que há de ridículo nela...
Não temam, portanto, que o poder da TV possa mudar a cabeça de alguém - muito menos a minha, que continua no lugar até hoje. Não vivo de imagens, não creio que nada ou ninguém se aliene contra o seu próprio consentimento, e também não acredito que reputações literárias possam ser arranhadas pelo simples fato de se escrever telenovelas: Manuel Carlos, Alcides Nogueira, Renata Palottini e Aguinaldo Silva, para citar apenas quatro nomes, são excelentes exemplos de brilhantes intelectuais e teledramaturgos. Pessoalmente, em termos profissionais - e resguardadas as proporções do bom-senso -, tem prevalecido até hoje minha vontade de avançar, de experimentar, de correr riscos, despojando-me de certezas imutáveis e cômodas fórmulas de "sucesso garantido", comportando-me, na prática, de acordo com a ideologia expressa na deliciosa poesia de Caetano Veloso: "eu quero seguir vivendo, amor/ eu vou, por que não?/ por que não?"...
Cenas da próxima crônica, na 2ª quinzena de setembro:
Cap 02: Minha primeira novela - um "estupro light".
Anteriormente, no meu "piloto-trailer", adiantei que abriria espaço para mails que considerasse importantes. E a mensagem que quero comentar hoje é a de Marta Rolim, grande escritora, que além de tecer interessantíssimos comentários sobre o cinema digital, lança as seguintes perguntas: "Que oportunidades e vantagens a nova lei para emissoras de televisão, que determina que uma porcentagem significativa da programação seja de programação local, traz ou deixa de trazer para os roteiristas? O que falta para que a profissão de escritor seja regulamentada? Quais são os entraves que estão impedindo que isso aconteça? Por que a profissão de roteirista está regulamentada e a de escritor não? É no mínimo uma situação contraditória."
Pois é, Marta, pelas suas próprias colocações dá para sentir que as contradições do escritor não se restringem à trajetória da psique dos seus personagens. Escrever é um constante exercício de aprofundamento nas contradições humanas... e legais também. Aqui no Brasil, as leis nem sempre vigoram, ou não são cumpridas; então, as vantagens que elas proporcionariam continuam muitas vezes só no papel... letras mortas, por falta de uso. O que falta, me parece, é consciência de classe entre os próprios escritores, para exercerem maior pressão junto ao Legislativo. Hoje, e repito o que acabei de dizer em uma entrevista para a Revista Paradoxo, não podendo sermos contratados como "escritores" ou "dramaturgos", simplesmente não existimos, e, se não existimos, não temos nenhuma garantia, nenhum benefício, e também nenhum direito: nem mesmo o de trabalhar.
(*) Poeta, escritora de cinema, teatro e TV ("Pais Problemas", "Rainha da Vida", "Olho por Olho", "Kananga do Japão", "Barriga de Aluguel", "74.5" (versão internacional), "Mandacaru", entre outros, ex-roteirista da Rede Globo e da TV Manchete.
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