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Capítulo 7
"O medo da "falta de inspiração"...

Por Leila Míccolis*

(06/12/2003)


Curso Básico e Intensivo On-Line de Roteiro de Novela de Televisão - Teoria e Prática
c/ Leila Míccolis


Se boas oficinas de criatividade literária nem sempre fazem com que alguém passe a escrever bem, pelo menos ensinam aos seus participantes a organizar o pensamento de tal forma a perderem o medo da tão assustadora "falta de inspiração". Já é uma grande coisa, porque um dos obstáculos iniciais inibidores de muita gente é este justamente "dar branco" e não saber o que fazer... Quando acontece isto no palco, com um artista, ele improvisa: tem experiência suficiente para enfrentar tal imprevisto, sem maiores problemas; quanto a nós escritores, também podemos literalmente "tirar de letra", solucionar o impasse, até porque, em novela, "falta de inspiração" não existe, tudo já está organizado de forma direcionada e segura.
Costuma-se entender a palavra "inspiração" como um "dom divino" incontrolável e distante, fazendo do poeta ou do romancista um ser inerte e passivo, à mercê do "capricho dos deuses". Costumo substituir a palavra "inspiração" por "idéia" ou "insight", por ter menos conotações mágicas e poder ser entendida e visualizada mais facilmente. Aliás, outra palavra com a qual também implico é "talento", fatalista demais para meu gosto; costumo brincar que só conheço um único tipo de talento: as antigas medidas de peso e as gregas e romanas... Essas existiam concretamente e conginham "valores"; mas, talento como aptidão "natural"?... O que é "natural" na vida, se até o andar, o pegar em um garfo e faca para comer, ou em uma caneta para escrever já são habilidades adquiridas culturalmente? Como o tudo mais, "talento" treina-se, exercita-se, burila-se. Principalmente em termos de novela, em que, repito, a continuidade já está ligada a uma pré-organização anterior: a história prende-se a sinopse, e os capítulos, a escaleta - que é um esboço do que vai acontecer no capítulo, cena a cena. Então, não existem grandes sobressaltos, apenas um "desdobrar" de cenas, fibra por fibra, parodiando a metáfora do poeta.
Enquanto uma "inspiração" não se sabe de onde vem, nem para onde vai, nem quando aparece, a origem de uma idéia pode ser perfeitamente estabelecida: o estímulo à nossa criatividade pode dar-se através das notícias de jornais, de um fato que aconteceu ao nosso redor, de uma observação, de um outdoor ou de uma publicidade na TV, de um comentário que alguém fez, enfim, a vida é um manancial infinito de idéias, basta que estejamos atentos ao mundo que nos cerca para captarmos este vasto material. No entanto, imaginação não é "ter idéias"... é saber "organizá-las, sem que fiquemos ofuscados por elas" - bela definição de Teresa Guedes. Às vezes, um fato ou uma frase comum nos "instiga" a ponto de deles brotar uma idéia excelente, mas que, mal trabalhada, se dilui e se perde. A literatura, não é, portanto, apenas a arte de colocar na tela ou no papel as imagens que vemos ou sentimos; é, também, sabermos como melhor aproveitar e expressar as idéias associativas que o escrever suscita, na medida exata da seu volume e espessura.
Ou seja: o mais difícil não é ter idéias - se você estiver antenado com o mundo, nunca sofrerá do medo de faltar material de trabalho - é desenvolvê-las, conseguindo um estilo próprio, característico. Comece, então, por perder o medo do "branco", tanto no papel ou do monitor, quanto da "inspiração". Para isto, mude o enfoque: lembre que esta ausência é sintoma da sua falta de percepção, de atenção, ou de concentração; é apenas bloqueio momentâneo, e não propriamente uma "vingança dos céus" contra nós, pobres mortais. Visto o impasse por este ângulo vencemos mais rápido o autoboicote, porque está ao nosso alcance controlar nossa ansiedade, o que não poderíamos fazer, se contássemos com um "dom caído do céu", inacessível, inconstante e fugidio.
"Muitos são os que erguem a voz; porém, poucos são os inspirados". Parábola de Jesus? Não, afirmação de Platão... e o filósofo que me perdoe, mas, hoje, basta entrarmos em qualquer site na Internet para perceber que somos todos inspirados e criativos.
O dia em que faltar idéias, não resta mais vida. O mundo se acaba.

O e-mail desta quinzena é de Jorge T. Oliveira, de Salvador/BA:
  • Eu li o livro do Doc, mas tem alguns pontos que eu sinto que ainda me escapam. Por exemplo: qual a importância, na prática da novela de TV, da micro-estrutura de uma cena? Ela é uma ferramenta usada no dia-a-dia ou não é necessária?

  • LM - A micro-estrutura de uma cena é importantíssima para o cinema, cuja formatação do roteiro é feita através de seqüências constituídas por planos; cada ação corresponderia, neste caso, a um plano da seqüência do roteiro (não se esqueça de que o livro de Doc, embora aborde muito a teledramaturgia, também fala um pouco de roteiro de cinema). No entanto, existe a meu ver uma função teledramatúrgica sim, e ela se liga justamente ao assunto que abordei na crônica de hoje, por isto selecionei sua mensagem, não foi mera casualidade, foi causalidade mesmo: reação de causa e efeito... Conhecer a estrutura da cena serve para você treinar o seu desdobramento, o encadeamento de atos que acontecem nela; serve também para você sentir a pulsação e o ritmo dela. Você enriquece a narrativa quando pensa no desenvolvimento interior do que está sucedendo nela: o ato gerando a reação, gerando a contra-reação, gerando o questionamento, o rebate, a resposta, a contra-resposta, o revide, a revanche, e assim até o clímax. Exercitando esta técnica micro-estrutural, tem-se maior chances de dinamizar a cena, de movimentá-la com mais interações; este aprofundamento propicia também diálogos mais ricos, de acordo com a multiplicidade de ações e reações dos personagens envolvidos. Por fim, ao pensar na cena com mais carinho, muitas vezes você consegue encompridar o capítulo com o material já disponível, sem ter que usar outros artifícios para alcançar o número mínimo de páginas exigidas pela minutagem - estratégia que, além de fatigar menos o autor, ainda proporciona uma maior densidade à narrativa dramatúrgica. Eis sua importância.

Cenas da próxima crônica, na 2ª quinzena de dezembro:
Cap 08: FAQS - as dez perguntas mais freqüentes dos meus alunos sobre telenovela

(*) Poeta, escritora de cinema, teatro e TV ("Pais Problemas", "Rainha da Vida", "Olho por Olho", "Kananga do Japão", "Barriga de Aluguel", "74.5" (versão internacional), "Mandacaru", entre outros, ex-roteirista da Rede Globo e da TV Manchete.
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