TVez
Capítulo 10
Inovações em novelas
Por Leila Míccolis*
(22/01/2004)
Um dos argumentos contra a novela é o de que nela nada muda, ou seja, de que não há criatividade, porque a fórmula seria sempre igual, ou, no melhor dos casos, parecida. Esta é uma afirmação reducionista. Se assim fosse, continuaríamos ainda a ver apenas adaptações de grandes obras estrangeiras, como foram as primeiras novelas de sucesso, na Globo (para citar apenas uma emissora, a maior atual na veiculação do gênero).
De lá para cá muitas mudanças aconteceram, mesmo que imperceptivelmente para o grande público. Dizer que nada mudou é dizer que não houve transformação social, uma vez que as novelas refletem bastante a época em que surgem, ou não granjeariam a simpatia de um público tão heterogêneo de milhões de pessoas, em todo o país (e até no estrangeiro, pois o mercado internacional tem crescido muito com relação ao produto brasileiro). Queiram ou não, nem a sociedade estagnou nem a teledramaturgia brasileira.
No meu "capítulo anterior", entre a listagem das novelas que mais me estimularam o imaginário, aparecem, em primeiro lugar o Sheik de Agadir e Eu compro esta mulher, de Glória Magadan, que, na época (1965), além de autora, era diretora de dramaturgia da Globo. Com muita visão, a escritora utilizou como lastro cultural famosos romances da literatura universal, adaptando-os à realidade brasileira: Eu compro esta mulher - adaptação de O Conde de Monde Cristo, de Alexandre Dumas (direção de Henrique Cardoso e Régis Cardoso, com Yoná Magalhães, Carlos Alberto e Leila Diniz, no papel da vilã Úrsula); O Sheik de Agadir - baseado no romance Taras Bulba, de Nikolai Gogol (direção de Régis Cardoso e Henrique Martins, este último no papel principal, do próprio Sheik Omar Bem Nazir e Yoná Magalhães, no papel de Janette Legrand). O Sheik inovou um tipo de novela mais longa, com praticamente o dobro de capítulos: teve 155, quando o máximo antes delea, tinha sido Eu compro esta mulher, com 85.
Depois, seguindo minha lista, vem Bráulio Pedroso - especialíssimo, incrível. Uma vez ouvi um grande novelista comentar, referindo-se a ele: "não somos tão bem pagos assim para exibir tanta criatividade"... Pois é, Bráulio esbanjava criatividade, e de repente faria isso por um salário até menor do que recebia, incompatível com sua genialidade, porque amava escrever acima do lucro, da fama, do dinheiro. Nunca deixou que o sucesso lhe subisse à cabeça, conforme me revelou sua mulher, a poeta Marilda Pedroso. E justo porque adorava o seu ofício, revolucionou a teledramaturgia: Beto Rockfeller encarnava um tipo brasileiro bem popular: o homem pobre que precisa utilizar sua sagacidade a toda hora para se dar bem na vida ou, pelo menos, para driblar a pobreza: cheio de truques, mentiras ingênuas, capacidade de improvisação, e articulação inteligente, conquistou o povo, de imediato. Um Macunaíma, de Andrade, ou um João Grilo, de Suassuna, só que urbano, e, lógico, adaptado ao meio televisivo.
O Rebu é a única novela cinematográfica que conheço: passada quase que toda em uma única noite, apresentava magníficas sucessões de corte direto, em que a cena de contraplano seria vista logo depois de acabada a cena do primeiro plano. Uma preciosidade. Lembra-me Hitchcock em Festim Diabólico, filmado sem cortes. Lógico que não é igual, televisão não é cinema, mas é projeto tão ousado quanto. Tanto que nunca foi novamente tentado, até pelas inúmeras dificuldades na realização de uma produção dessas.
Bráulio sempre inovou: em Beto Rockfeller, colocou o dia-a-dia do Brasil na tela e uma linguagem coloquial; em Rebu, enfocou a primeira trama policial de grande porte na telinha. Em Feijão Maravilha - uma story-line batida: a da troca de malas - introduziu o primeiro núcleo de bandidos (e bandidagem pesada para aquela época e para aquele horário)... Em resumo: ele foi sempre muito corajoso e genial.
Eu pretendia, ao começar esta crônica, falar genericamente sobre as inovações novelescas e acabei me detendo na teledramaturgia de Bráulio em particular. Esta é a prova de que as palavras têm vida própria e, muitas vezes, mudam os caminhos iniciais pretendidos pelo escritor... Mas, tudo bem: não se pode falar de novela, de uma obra aberta sujeita a interferências e injunções, se nos fecharmos a estes doces imprevistos.
Email desta quinzena: Alberto Carmo, escritor que tem brindado Blocos com vários de seus textos:
- "Li seu artigo sobre a lista das novelas. Confesso que vi Sheik de Agadir, Beto Rockfeller, O Bem amado e Roque Santeiro. Depois não vi mais. As novelas modernas não gosto. São intrigas demais, e personalidades por demais doentias. Não creio que sejam um reflexo da sociedade atual como um todo. Mas isso é gosto. Prefiro as novelas de época, principalmente pelas paisagens, roupas, casas, e intrigas, digamos, menos carregadas das maldades modernas - devo ser saudosista até nas maldades. (rs)
- Pergunta minha: Novelas de época não teriam uma produção mais cara em virtude de muitas cenas serem feitas em locais abertos, figurinos mais elaborados, etc.? Me parece que as novelas mais modernas, após um início que às vezes se passa no exterior, por exemplo, depois trancam-se em cenários dentro de estúdios, salas, quartos. Não seriam, por isso, mais baratas de se produzir?"
- LM - Alberto, só discordamos em um único ponto: o das novelas não serem o reflexo da sociedade atual como um todo. Na minha opinião, reafirmando o que comentei acima, se elas não a projetasse, não atingiriam tanta gente simultaneamente. É certo que a teledramaturgia de todos os tempos lida com arquétipos emocionais universais, mas, insisto: se o público não se identificasse com a trama, o gênero não alcançaria o retumbante sucesso de hoje. Quanto às novelas de época embora não possa afirmar categoricamente, pois esta não é a área do escritor, creio, pelas minhas experiências pessoais, que são mais caras sim, não tanto pela construção de cidades cenográficas (os locais abertos estão dentro delas, parecem externas, porém em geral não o são, até porque as externas acabam saindo caríssimas), figurinos, e outros elementos citados por você; mas porque é muito mais difícil de se conseguir fechar patrocínios, através de merchandises (publicidade). São raras as marcas de produtos que ainda estão no mercado desde épocas mais distantes, e este fato faz com que as emissoras pensem duas vezes antes de aprovar o projeto para um núcleo menos visto do que o do horário nobre. Como qualquer novela acarreta, diariamente, um custo de milhões de reais, é risco extra a possibilidade de fechar, de antemão, o retorno financeiro da empreitada através desta porta. E não devemos nos esquecer de que são os anúncios que mantém qualquer emissora - de rádio ou de televisão - em pé.
Cenas da próxima crônica, na 1ª quinzena de fevereiro
Cap 11: Celebridade e o estilo de Gilberto Braga
(*) Poeta, escritora de cinema, teatro e TV ("Pais Problemas", "Rainha da Vida", "Olho por Olho", "Kananga do Japão", "Barriga de Aluguel", "74.5" (versão internacional), "Mandacaru", entre outros, ex-roteirista da Rede Globo e da TV Manchete.
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