(28/04/2002)
Foto: Rubinho Chaves
ROTEIROS ON LINE - Glauco, como é seu dia-a-dia hoje? A que horas costuma acordar, a
que horas dorme? Você tem uma rotina para seu trabalho? Quantas horas
escreve por dia? Costuma sair todos os dias?
GLAUCO MATTOSO - Essa é uma de muitas contradições da minha personalidade. Embora
tido como excêntrico e desregrado, sempre fui metódico e meticuloso.
Depois de cego, me apeguei ainda mais à rotina, até para não me
desestruturar por completo, pois se não observasse horários perderia a
noção de dia ou noite, uma vez que não sei se está claro ou escuro.
Assim, procuro seguir meu relógio biológico e adaptá-lo ao serviço de
hora certa da telefônica. Acordo entre 7 e 8, ouço um pouco de rádio
antes de levantar da cama, pingo colírios para controlar a pressão (sem
os quais o olho já cego endureceria até a petrificação sob dores
insuportáveis), preparo meu café como um ritual de paciência (já me
acostumei com a posição de canecas, leiteira, colheres, açucareiro,
manteigueira, etc.), passo boa parte da manhã sentado no vaso e
massageando o abdome para vencer a prisão de ventre, tomo banho, me
barbeio e, se durante a insônia da noite passada compus e "salvei" mais
um poema na memória, ligo o computador falante e digito a nova obra para
salvá-la de verdade. Aproveito para pôr em dia outros textos
digitalizados, como por exemplo a resposta a esta entrevista. Caso não
haja poema novo, abro o computador para enviar e receber os "emeios".
Concluo essa operação entre 10 e 11, quando encomendo o almoço que será
entregue na portaria do prédio ao meio-dia. À tarde ouço rádio (apenas
estações noticiosas), trabalho mais um pouco no computador se houver
coisa pendente, depois desço ao jardim do condomínio para tomar ar e
ouvir mais rádio no walkman, sentado num daqueles duros bancos de praça
e atordoado com a gritaria da molecada na piscina do prédio vizinho.
Janto às 18, pingo de novo os colírios, acompanho pelo som o noticiário
da TV (Boris Casoy) e passo o resto do tempo ouvindo CD no fone de
ouvido, até dar sono. Deito por volta das 23, após mais um colírio e um
comprimido para o intestino preso. Essa é a rotina quando estou só.
Quando meu companheiro Akira está presente, alguma coisa muda, pois o
tempo a mais que ficamos na cama é compensado pela agilidade dele em
preparar café, almoço ou janta, já que o rapaz se vira muito bem na
cozinha e em outros afazeres domésticos, além do inglês (língua que
leciona) e da literatura (que compartilha comigo quando tem tempo de me
ler em voz alta). É ele, inclusive, quem me acompanha no passeio pelo
quarteirão, pois já não me arrisco sozinho, de bengala, cara e coragem,
naquela calçada selvagem.
ROL - Como é perder a autonomia para uma pessoa ativa e intensa como
você?
GM - Quando, após a última cirurgia (1995), saí do hospital já sem
enxergar nada, foi como se a vida estivesse acabada. Nem segurar um
garfo eu conseguia. Tudo me caía das mãos, em tudo eu tropeçava. Achei
que nunca mais iria comer sem que alguém me desse na boca. Experimente
vendar os olhos, sentar-se à mesa e se servir, talheres, copos, facas,
pratos, vasilhas, sem enxergar. Você vai ver o que um papagaio faz com
uma banana! Mas aos poucos fui me habituando e hoje faço tudo com calma,
apalpando em volta até me certificar que tipo de objeto está na minha
frente. Uma vez por semana vem uma faxineira fazer a limpeza. O resto do
tempo mantenho as coisas sempre no lugar, desde discos até remédios.
Quando o Akira não cozinha, a comida vem pronta da rotisseria.
ROL - Quais características diferenciam sua obra antes e após a cegueira?
O que mudou em seu processo criativo? O que mudou no conteúdo? Mudou a
forma?
GM - Mudou tudo. Eu fazia poesia visual, concretismo misturado com arte
datilográfica, roteirizava quadrinhos, editava meus zines, colaborava na
imprensa alternativa e teorizava sobre obra alheia em qualquer mídia.
Lia muito, era cinéfilo, devorava gibis. Com a cegueira, fiquei reduzido
à memória. Com o computador falante, recuperei a capacidade de redigir,
mas agora só posso imaginar linhas escritas, texto puro, poesia em
versos, quanto mais metrificados e rimados, melhor. O soneto e a décima,
além do haicai e do limerick, são meus moldes mais trabalháveis. Ritmo e
rima ajudam a reter mnemonicamente o que foi composto durante as
insônias, até que eu possa passar para o computador. Mas o que mais
mudou foi a temática. Os mais desatentos acham que continuo insistindo
na mesma tecla (escatologia, sadomasoquismo, taras, violência,
fetichismo, sexo sujo), mas tais temas, sob a "ótica" atual da cegueira,
ganharam dimensão inteiramente diferente, agora pateticamente
angustiante em vez de meramente lúdica e cômica. Meu humor, mais negro
do que nunca, serve agora de ironia para encarar minha desgraça e, com
ela, as injustiças de outros sofredores.
ROL - O que o inspira? Você poderia falar um pouco das influências sobre
sua obra? Os clássicos, modernos, Borges, fatos do dia-a-dia?
GM - Como tive formação de bibliotecário (aliás como Borges), li um pouco
de tudo. Minha erudição tem base filosófica e teor enciclopedista. Mas
minha linha de influência é aquela onde convivem a sabedoria e a sátira,
a cultura e a paródia. Espíritos voltaireanos tipo Millôr são os que
mais me fazem a cabeça. Além disso, o lado chulo da linguagem sempre me
fascinou pelo que tem de "proibido" e transgressivo, daí meu fraco pelos
fesceninos e francamente pornográficos, de Marcial e Catulo a Sade e
Masoch, de Gregório a Bocage, de Genet a Réage, de Laurindo Rabelo a
Moysés Sesyom. Borges participa desse panteão como uma espécie de santo
padroeiro ou bibliotecário-chefe.
ROL - Por falar em Borges, lhe incomoda a comparação? São muitas as
coincidências e o paralelo acaba se tornando inevitável.
GM - A comparação não me incomoda, até ajuda a dar mais respeitabilidade
à minha obra, mas há menos motivos para comparação em nossas obras que
coincidências a apontar em nossas vidas, tipo formação de bibliotecário
e informação de bruxo, atração pelo tipo oriental (ele com Maria Kodama
e eu com Akira), a cegueira e a criação mental memorizada. Até fiz
sonetos a respeito, reproduzidos no ensaio "A Negação do Negro", onde
comparo minha "visão" pessimista da cegueira com a otimista de Borges.
ROL - Qual sua relação com a música? O que você ouve hoje e o que já
curtiu muito?
GM - Sempre curti rock, mas como não tive chance de aprender a tocar
guitarra. Me imaginava vocalista das bandas preferidas na juventude:
Beatles, Byrds, Kinks, Creedence. Mais tarde minha fantasia se
contentaria em ser letrista. Passada a adolescência, pesquisei muito a
velha guarda da MPB e cultuei Carmen Miranda, Mário Reis, Lamartine e
Noel. Dos mais recentes, meu interesse vai de Adoniran a Tom Zé, de
Cazuza a Renato Russo. E já que produzo e edito CDs de rock tribal em
meu selo Rotten Records, tenho que curtir punk, psychobilly, hardcore,
ska e outras tendências alternativas ao pop comercial. Como contrapeso,
nas horas mais solitárias ouço música barroca (sonatas para cravo de
Scarlatti, por exemplo) ou folclórica (modas de viola de Helena
Meirelles, por exemplo).
ROL - Quando você enxergava, era um cinéfilo e LARANJA MECÂNICA foi um
filme marcante para você. Gostaria que falasse um pouco de cinema,
filmes, roteiristas e diretores dos quais gostava e se lembra.
GM - Meu fanatismo por LARANJA MECÂNICA não se deve só ao fato de conter
a cena mais bem realizada de lambeção de sola de sapato em close, mas
pela adaptação bem sucedida dum livro fascinante e complexo. Junto com
1984, é caso de filme que fica à altura do livro em que se baseia, ao
contrário da grande maioria tipo PAPILLON, A MORENINHA, MACUNAÍMA, O
NOME DA ROSA ou DRÁCULA. Isso tem a ver com os diretores e, também, com
os roteiristas, claro. Estranhamente, não tenho boa memória para elencos
e fichas técnicas como tenho para verbetes e bibliografias, mas acho que
cabe reproduzir um depoimento recente que dei a Daniel Almeida, do sítio
da Som Livre, sobre preferências cinematográficas. Lá vai:
- 1 - Bom para se xingar... (filmes, cineastas, atores)
- Desde criança eu tinha raiva de musicais. Meus pais curtiam aqueles do
Nelson Eddy e da Jeanette McDonald, mas eu não detesto nenhum em
particular: odeio todos, indistintamente, exceto os que conseguiram
captar algo da minha paixão rockeira e do clima contracultural da minha
geração, como TOMMY. Os hollywoodianos, tipo SETE NOIVAS PARA SETE
IRMÃOS, nunca me fizeram a cabeça. Fora disso, nunca aceitei outro James
Bond que não fosse o Sean Connery, e tinha ódio mortal quando alguém
falava que o Roger Moore era o "principal" 007. Pra mim o Roger não
passava do Ivanhoé do seriado de TV. Por falar em seriados, o que eu
mais detestava era aquele da FEITICEIRA (ou seria JEANNIE É UM GÊNIO?),
principalmente quando ela mexia o nariz pra fazer suas mágicas
funcionarem. Também me irritavam as cenas de beijo na boca dos clássicos
americanos: não pelo beijo em si, mas pela meia hora que demorava até
que a boca da mulher se aproximasse da do homem. Por que cargas d'água
ninguém rodou uma cena em que um pé fosse beijado daquele jeito, em
câmara lenta? Sempre achei as cenas de pé beijado muito rápidas, não sei
por quê...
2 - Fizeram meus olhos sorrir...
- Primeiro foram aquelas séries que me faziam rir de boca escancarada:
Três Patetas, Gordo e Magro, Agente 86, I love Lucy, isso pra não falar
nos desenhos do Tom & Jerry ou da Pantera Cor-de-Rosa. Depois meu riso
sádico substituiu a gargalhada de circo, quando assisti O CANGACEIRO,
primeiro de muitos clássicos da crueldade, dentre os quais o último
visto antes da perda da visão foi o do canibal Hannibal (O SILÊNCIO DOS
INOCENTES). Mas meus olhos se extasiavam mesmo era quando algum pezão
masculino aparecia em primeiro plano, de preferência na cara de alguém,
como em CRIMES DE PAIXÃO, PAIXÃO SELVAGEM, MINHA ADORÁVEL LAVANDERIA,
UMA FESTA DE PRAZER e o mais indelével de todos, LARANJA MECÂNICA.
3 - Os pés mais adoráveis da sétima arte...
- Nem sempre o pezão masculino aparecia descalço, e era até interessante
que só aparecessem botas pesadas, surradas, empoeiradas e difíceis de
lamber, mas pelo que me lembro o pezão descalço mais desejável era o de
Joe D'Alessandro em PAIXÃO SELVAGEM, pisando bem na boca da Jane
Birkin...
4 - Aqueles italianos é que eram bons... (sacadinha sem graça com seus
antepassados)
- Independentemente dos pés em close ou em pose sadomasoquista, sempre
curti a filmografia italiana, cujos papas são pra mim realmente os
bambambans: Pasolini (principalmente SALÓ e MIL E UMA NOITES), Fellini
(tanto os PB como os coloridos tipo JULIETA DOS ESPÍRITOS ou CASANOVA),
Bertolucci (aquele monumento ao século XX [o 1900] e aquele outro à
China [O ÚLTIMO IMPERADOR] são piramidais), quase todos os da Lina
(MIMI, O METALÚRGICO; PASQUALINO SETE BELEZAS; POR UM DESTINO INSÓLITO;
AMOR E ANARQUIA; TUDO CERTO MAS NADA EM ORDEM...), mas me marcaram um
PB, A BATALHA DE ARGEL e um colorido, UM DIA MUITO ESPECIAL (UNA
GIORNATA PARTICOLARE), onde o Marcelo e a Sofia me comoveram até as
lágrimas.
5 - Preferiria não ter visto nada...
- Acho que aqueles musicais americanos, com cenas de sapateado. Nunca
entendi por que o Gene Kelly ou o Fred Astaire são tão endeusados. Só
aquele barulhinho dos sapatos tamborilando já me irritava. Talvez porque
eu prefira sapatos mais pesados e rudes, pisoteando caras humanas em vez
de calçadas empoçadas... Sei lá.
6 - Um fotograma que não sai da minha retina...
- Ah, sem dúvida nenhuma, sem pestanejar e sem parar de babar: é aquele
close da cara do Malcolm McDowell debaixo duma sola, a língua saindo da
boca e lambendo o sapato por baixo em LARANJA MECÂNICA. Tenho tamanha
fixação naquela cena que pus o fotograma no meu site e não me canso de
citar a cena em prosa e verso.
ROL - No curta POLIDAMENTE CORRETO e no vídeo REFLEXO
SOLAR, este último criado para participar do Festival Mundial do Minuto, qual foi
sua participação? Como é a linguagem do roteiro para você?
GM - Tenho mais familiaridade com o texto teatral, desde quando atuei no
teatro amador na década de 70, num grupo que montava dramaturgos do
absurdo tipo Arrabal e Ionesco. Também li muito Nelson Rodrigues, Plínio
Marcos e outros malditões. Mas roteiro propriamente dito, script de TV
ou cinema, com indicações de seqüências e planos, tabulado em colunas,
cronometrado e mastigadinho cena a cena, esse tipo de linguagem eu nunca
pratiquei, profissional ou amadoristicamente. No caso das obras de Almir
Almas, a roteirização em si, no papel, cabe a ele como professor nessa
área, pois minha parceria se dá mais no campo do argumento e das
sugestões práticas, que Almir sempre detalhou informalmente comigo, uma
vez que pouco posso esquematizar por escrito num computador limitado ao
texto puro. Na época em que roteirizei quadrinhos com Marcatti foi
diferente, pois eu fazia o "rough" encaixando esboço do desenho, balões
e recordatórios com texto incluso, mas sem visão não posso sequer
tabular colunas para margear rubricas e diálogos. Enfim, é algo que está
fora do meu alcance, como a computação gráfica ou a diagramação.
ROL - Você leu Syd Field? Muita gente na área é contra, outros a favor.
GM - Nunca li tais manuais. Quem os adotou em aula (com Doc Comparato e
outros) foi meu parceiro Almir Almas, que hoje leciona direção de TV e
produção de cinema na ECA (USP). Acho que a previsibilidade de Field,
com seus gráficos e cronogramas, não se aplica à parceria de Almir
comigo, já que trabalhamos num campo mais alternativo e experimental. Se
no vídeo do minuto pareço regrado pelo cronômetro é porque raciocino
intuitivamente, obedecendo a meu lado apolíneo. Quanto ao roteiro de
POLIDAMENTE CORRETO, Almir o cronometrou em nove minutos e
esquematizou-o no papel nesse formato técnico de que tratam os cursos,
mas sem a preocupação fieldiana de preencher expectativas condicionadas.
O filme não chegou a ser rodado, mas Almir já utilizou o roteiro em
classe como exemplo de infidelidade ao fieldismo.
ROL - Você acha que o Brasil de hoje é "contra a cultura"? Aliás, há
cultura hoje no nosso país? Não falo da cultura popular, mas do ensino,
da leitura, da criação. Você podia falar um pouco disso?
GM - Não há muito o que falar. Tudo se resume no ditado "Em terra de
cego, quem tem um olho é rei", que o brasileiro já avacalhou como "Em
terra de cego, quem tem um olho é caolho" ou "Em terra de olho, quem tem
um cego... ERREI". Ou ainda como digo eu: "Em terra analfabeta, quem
soneta é poeta"... O fato é que, se só Buenos Aires tem mais livrarias
que o Brasil inteiro, que se pode esperar do nível de exigência dessa
indigência cultural? Isso explica por que Getúlio Vargas e Sarney
entraram para a Academia Brasileira de Letras enquanto Millôr ou Glauco
Mattoso são considerados humoristas em vez de filósofos, isto é, não são
levados a sério. Mas não sou de todo pessimista, pois não penso só em
termos de cultura letrada ou de comunicação de massa: valorizo a
verdadeira cultura popular, que ainda resiste na tradição oral ou na
literatura de cordel, e cujo patrimônio jamais se perderá, do mesmo modo
que o soneto ou a glosa jamais deixarão de ser compostos, ainda que o
sejam por um número cada vez menor de praticantes e conhecedores...
ROL - Após eu ter lido seu livro PANACÉIA, achei interessante encerrar essa
entrevista com sua opinião sobre o que sente em relação à situação política,
corrupção, ou seja, disso tudo em que estamos mergulhados no nosso país...
GM - O livro PANACÉIA pode parecer uma metralhadora giratória contra
muita vidraça visível, mas prefiro responder com dois sonetos de outro
livro, PAULISSÉIA ILHADA (1999):
SONETO 190 REDUNDANTE
Pediram-me um escândalo, e é pra já.
Malversação de fundos? Nada disso.
O seio da modelo, que é postiço,
também já não excita a língua má.
A droga nas escolas? Ninguém dá
a mínima importância ao desserviço.
Seqüestro de empresário? Algum sumiço?
Remédio adulterado? Quá! Quá! Quá!
A fraude eleitoral virou rotina.
As contas no exterior não causam pasmo.
Ninguém estranha o cheiro da latrina.
Até Matusalém já tem orgasmo!
Só resta a comentar, em cada esquina,
que o cego é chupa-rola... Um pleonasmo!
SONETO 171 FISIOLÓGICO
Quem disse que a política não fede?
O esgoto do Congresso é prova disso.
Parlamentar que quer mostrar serviço
bem sabe donde a prática procede.
Do vaso, e não das urnas, vem e mede
tamanho e proporção dum trem roliço.
E quem quiser meter o dedo nisso
esteja onde o governo tem sua sede.
Ministros já instalaram gabinete
no espaço mais propício à sua função:
Despacham no recesso da retrete.
Quem faz, por outro lado, oposição
critica a fedentina do tolete
propondo obrar com força e retidão...

(*)Para biografia, obras, sites e muito mais sobre o poeta, escritor e
humorista, visite: Glauco Mattoso
ROTEIROS ON LINE
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Copyright © 2001 Denise Camillo Duarte