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Capítulo 6
"O dia em que Florinda Bolkan
atuou em uma minissérie brasileira"

Por Leila Míccolis*

(22/11/2003)


Curso Básico e Intensivo On-Line de Roteiro de Novela de Televisão - Teoria e Prática
c/ Leila Míccolis


A única vez que trabalhei no Brasil com uma estrela de cinema foi quando escrevi "Rainha da Vida" para Florinda Bolkan. Aliás, ela também: foi sua única atuação nas telinhas nacionais. Era uma minissérie pequena, produzido pela Spectrum (uma extinta produtora independente). A sinopse não era minha; fiquei apenas encarregada de elaborar os capítulos, com Marina Cicogna, presença que todos "temiam", por ter fama de ser demasiado austera. Realmente Marina era bastante determinada, muito segura em todos os seus atos, mas tinha muito bom-senso e aceitava sugestões, de modo que, trabalhar com ela, foi muito mais tranqüilo do que lidar com muitos parceiros brasileiros. Quando acabei de escrever, eu a admirava muito, e cheguei a pensar que deveríamos ter no Brasil mais Condessas como Marina: executivas firmes, mas extremamente sensíveis.
A minissérie sofreu pela produção precária, dessas que colocam a personagem principal descendo do ônibus sozinha para economizar o mísero cachê dos figurantes; só para se ter idéia em uma mega-festa, por exemplo, na cena em que Florinda recebe o óscar, no primeiro capítulo, a câmera se manteve fechada, focando apenas a primeira fila de cadeiras, a qual se restringia a platéia do set... Diante de tanta restrição, o produto final fica retraído, acanhado, minguado. No entanto, conversando com Jorge Dória alguns anos depois, ele me disse que gostara muito do seu papel, por causa do texto, bem forte quanto ao seu personagem, que era inclusive fetichista (tema pouco abordado na TV brasileira).
Havia grandes nomes no elenco: Raimundo Fagner, Nuno Leal Maia, Débora Duarte, Jorge Dória, Marilu Bueno, André Felipe, Angela Leal, Tony Ferreira, Odilon Wagner, Celso Farias, Claudio Gaia, Patrícia Gemanyel, Tania Scherr. O diretor geral foi o Walter Campos e o Diretor Assistente: Hélio D'Andrea. A sinopse se baseava em fatos da vida real de Florinda - vividos pessoalmente ou vivenciados (presenciados) por ela. Havia na narrativa muito do seu universo pessoal e este dado aguçava a curiosidade do telespectador. Contava-se a história de uma mulher que, depois de vencer em sua carreira artística, voltava ao seu berço natal, uma cidade nordestina pequena e interiorana, para se vingar principalmente do pai, um coronel prepotente e falso-moralista, que a expulsara de casa, separando-a de seu filho recém-nascido.
A minissérie era curta - foi ao ar de l6/11 a 4/12/1987, no tamanho ideal, no formato compatível para ser vendida no estrangeiro. Sim, porque é terrível reformatar-se uma novela depois de pronta - vivi essa experiência em meados dos anos 90, com outra produtora independente. Nestes casos, a reformatação é feita dentro da ilha de edição e o autor-reformador precisa ter muito jogo de cintura - inclusive aprender o mínimo de montagem (área que não é a dele) - para poder desempenhar sua função a contento.
A minissérie lidou com arquétipos fortes e mobilizadores, como amor, rejeição, honra, solidão, separação, ódio, vingança e sucesso; mas teve, como característica principal, a atuação da própria Florinda, que encarnava o glamour de Hollywood com o sertão brasileiro (ela nasceu em São João de Uruburetama, Ceará). E esta aproximação entre duas culturas tão diferentes e entre realidade e ficção tão difíceis de aparecerem juntas, foi o maior atrativo para um público não tão imenso - quanto se desejava - mas bastante fiel até o último capítulo.

O e-mail da quinzena é de Heloísa Beltrão:
  • Tenho duas perguntas meio que entrelaçadas: 1) por que é necessário se fazer primeiro o argumento? Ou seja: por que não se faz logo a sinopse direto, não seria mais prático? 2) Como a gente percebe os erros de uma sinopse, se para o autor tudo o que ele escreve é sempre lindo, maravilhoso e perfeito?

  • LM - Heloísa, como se constrói uma casa? Primeiro a fundação, o alicerce, e depois, aos poucos, assenta-se os tijolos, não é verdade? Poderia até ser mais prático pular etapas, mas muito mais perigoso também para a estrutura. Pois igual é com o argumento, que é o alicerce (a fundação é a story-line, que não é apresentada a ninguém, servindo apenas ao escritor, mas, sem ela, o edifício inteiro pode desmoronar). O argumento é a base onde se vai construindo outras histórias; ela tem muitas propriedades, mas a principal, para o escritor é facilitar a arquitetura, o desenho narrativo, fazendo com que o edifício seja erguido solidamente. Nada impede que você escreva direto a sinopse, mas lembre-se de que quanto mais alguém reescreve um texto, mais fica antenado nele, o que possibilita corrigir as falhas que haja. Quanto a saber "pescar os erros", primeiro você precisa saber quais os erros que você está procurando; ou seja, você precisa conhecer os erros mais comuns da narrativa (incoerência, falta de consistência nos perfis psicológicos dos personagens, falta de detalhes substanciais que dêem vida real a eles, etc.) para poder encontrá-los; se não souber o que você busca, repito, fica muito mais difícil: você não pode pescar uma baleia em um barco onde só cabem peixes pequenos. No entanto, a "caça aos erros" é essencial: constitui-se em um dos grandes exercícios contidos no ato de escrever, porque através dela desenvolvemos a auto-crítica, essencial para qualquer artista; é necessário você ser muito exigente consigo mesma, antes que algum estranho o seja por você, muitas vezes de forma indelicada. Por fim, uma dica que serve para todos os escritores, de todas as épocas e em todos os tempos: nunca tenha esta postura de que tudo o que você escreve é lindo, maravilhoso e perfeito; ao contrário, leia o que você criou com a certeza de que pode o texto sempre pode ser melhorado, nem que seja mudando-se uma vírgula de lugar, ou substituindo uma única palavra por outra mais apropriada.

Cenas da próxima crônica, na 2ª quinzena de dezembro:
Cap 07: O medo da "falta de inspiração"...

(*) Poeta, escritora de cinema, teatro e TV ("Pais Problemas", "Rainha da Vida", "Olho por Olho", "Kananga do Japão", "Barriga de Aluguel", "74.5" (versão internacional), "Mandacaru", entre outros, ex-roteirista da Rede Globo e da TV Manchete.
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