TVez
Capítulo 8
FAQS
As dez perguntas mais freqüentes
dos meus alunos sobre telenovela

Por Leila Míccolis*

(24/12/2003)


Curso Básico e Intensivo On-Line de Roteiro de Novela de Televisão - Teoria e Prática
c/ Leila Míccolis


1 - Como se ingressa na TV?
LM: Às vezes através do caminho mais longo: através do teatro, cinema, ou literatura. O importante é que você faça um bom trabalho em alguma área artística para poder ser notado, apreciado e chamado... Já pelo caminho mais curto basta ter QI: Quem Indique...

2 - Quantas páginas tem um capítulo?
LM: Varia, dependendo do canal e da formatação que os autores usam. Também depende do tipo de cena, porque as visuais são menores, ou melhor: não tendo diálogos, ocupam menos espaço na página; no entanto, na hora da gravação, vão demorar mais do que uma cena dialogada. Às vezes, o tempo de uma música inteira da trilha sonora... De modo geral, pensem em uma página por minuto, o que vale de 30 a 42 páginas, se a novela tiver uma hora de duração (15 minutos são de intervalos comerciais).

3 - O que é mais importante na TV: a palavra ou a imagem?
LM: A imagem, uma vez que há cenas exclusivamente visuais, mas não existem cenas com a tela toda negra, só com o áudio do texto (a não ser em cenas especiais de black-out, assim mesmo por pouco tempo).

4 - Por quê preciso aprender ângulos da câmara, se sou escritor e não cineasta?
LM: Porque ser escritor não é apenas escrever, principalmente no caso da televisão: é visualizar a narrativa, o que não é possível sem saber pelo menos os quatro ou cinco planos ou quatro ou cinco efeitos óticos principais que enriquecem ou enfatizam a narração teledramatúrgica.

5 - Preciso decorar todos os nomes dos efeitos especiais em inglês?
LM: Não, você pode descrevê-lo, mas às vezes é bem mais e rápido e prático decorar uma única palavra...

6 - Se os personagens já estão todos apresentados na sinopse, para quê o rol de personagens?
LM: O rol é muito importante para o escritor. É através dele que as incongruências no comportamento dos personagens ficam mais visíveis. Se uma mulher é forte, mesmo em um momento difícil, apesar de todo o sofrimento, ela vai reagir; se não reagir, não soubemos fazê-la assim tão forte. Então, o rol nos ajuda muito a "não errarmos a mão" na narrativa; a mantermos a coerência dos personagens, adequando a ação deles à sua estrutura mental, à imagem-perfil que traçamos deles. Por isso, às vezes, vale mais a pena fazermos o rol antes mesmo de terminar a sinopse para ver se há alguma defasagem muito grande entre o pensar e o pensar dos nossos seres fictícios.

7 - O escritor escolhe os atores?
LM: Ele tem direito a escolher entre os atores do respectivo núcleo para o qual está escrevendo (das seis, das sete ou das oito); mas dificilmente consegue deslocar atores do núcleo das oito, por exemplo, para o das seis, a não ser em participações especiais.

8 - Qual a diferença entre o corte de flash-back e o de continuidade, se ambos dão continuidade ao passado?
LM: O corte de continuidade diz respeito a mesma cena, só que em épocas diferentes: um homem sozinho está diante de uma a árvore de natal, lembrando que em outros tempos, diante dela, ele estava cercado de sua família. A cena da continuidade é sempre uma só, passada em dois momentos diversos; já o flash-back pode evocar qualquer lembrança passada, em qualquer outro lugar diverso do presente.

9 - Como evitar as cenas gratuitas?
LM: Tenha sempre em mente que toda cena precisa ter uma intenção, seja ela qual for, plausível. Se não "disser a que veio" é preciso consertá-la: invente um motivo para ela existir, ou acrescente uma informação. A intenção da cena pode ser até sutil, passando, por exemplo, algum dado sobre o personagem, mesmo que seja sobre seu estado emocional; mas precisa existir algum motivo para que ela ter sido feita, ou o espectador, vai se sentir enganado, com o autor " enchendo lingüiça", o que pode desmotivá-lo, ou melhor, motivá-lo a mudar de canal...

10 - Quando se fala que a novela é uma obra aberta é porque pode-se mudar a sinopse inicial?
LM: Não, ela é uma obra aberta porque o público tem a possibilidade de interferir algumas vezes nos rumos de certos personagens; mas ela não é uma obra coletiva, uma vez que é escrita por algumas pessoas (autores e co-autores), que podem ignorar a opinião pública, se quiserem (embora não devam...). O que pode ser mudado na sinopse - eliminado, aumentado, transformado - diz respeito às tramas paralelas, inclusive criando-se novas, para movimentar mais a novela. No entanto, a história principal contada na sinopse não se muda (a não ser que a novela seja um fracasso e precise ser urgentemente reestruturada). Ela precisa ser seguida a risca, porque, em última análise, foi aprovada pela emissora que nela apostou (e muito), esperando fazer sucesso.

E-mail desta quinzena: Anita R., de Fortaleza/CE
  • Gosto muito de tramas que envolvam realidade fantástica. Mas fiz um curso em que o professor disse que era para eu desistir deste caminho porque a televisão brasileira não o usava muito. Desanimei.

  • LM: Exatamente por não ser um tema corriqueiro, não desista dele: filões pouco explorados chamam muito mais atenção do que os temas usuais. Lidar com o fantástico não é muito fácil, porque requer habilidade na apresentação de um imaginário metafórico, mais poético do que televisivo; qualquer resvalo, ou passo em falso, cai-se no pueril, no ingênuo ou no simplório; mas já tivemos diversas novelas usando com sucesso este gênero (Saramandaia, Kananga do Japão, A Indomada, A Viagem). Portanto, não desanime não. E nunca aceite um argumento de que você não está convencida como obstáculo para realizar o seu trabalho. Tente fazer sua sinopse dentro desta linha, sim. Ouse. Tenha auto-crítica, porém. No final, se você estiver confiança na história que narrou, tenha a coragem de acreditar na sua proposta, e a alegria de defendê-la vírgula por vírgula, ponto por ponto.

Cenas da próxima crônica, na 1ª quinzena de janeiro:
Cap 09: Minhas novelas preferidas

(*) Poeta, escritora de cinema, teatro e TV ("Pais Problemas", "Rainha da Vida", "Olho por Olho", "Kananga do Japão", "Barriga de Aluguel", "74.5" (versão internacional), "Mandacaru", entre outros, ex-roteirista da Rede Globo e da TV Manchete.
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