Glauco Mattoso

Ensaios e Sonetos
Biografia
Entrevista
Obra e sites
O Poeta da Rua Morgado
Peça de teatro
Comentários e referências à obra de Glauco Mattoso
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BIOGRAFIA

Escritor, poeta, filósofo, "maldito", intelectual, humorista, ensaista, cronista, cego, homossexual, podólatra, aficionado por pés masculinos, por nipônicos e gordinhas, punk, conhecido nos anos 70 como Pedro, O Podre, Glauco Mattoso nasceu Pedro Silva, em 1951, na cidade de São Paulo, com glaucoma congênito, perdendo a visão gradativamente e de forma irreversível, apesar das inúmeras cirurgias a que se submeteu durante sua vida, ficando completamente cego aos 40 anos de idade.

Foto: Cláudio Cammarota
Após a cegueira, em 1995, passou algum tempo distante da literatura, produzindo CD's para uma gravadora de rock independente, retomando a atividade literária em 1999, após comprar um computador falante para cegos (desenvolvido pela UFRJ). Isso foi possível graças ao dinheiro ganho com o Prêmio Jabuti pela tradução, em conjunto com Jorge Schwartz, do livro Fervor de Buenos Aires, de Jorge Luis Borges. Desde que obteve a máquina, escreve compulsivamente, intensamente.
Hoje, aos 52 anos, tem por companheiro Akira e mora no mesmo quarteirão desde 1983, em São Paulo. Não sai sozinho de casa, detesta usar bengala e é um inconformado não só com sua condição de cego, mas com a condição do cego no Brasil.
Nos Estados Unidos, Glauco é cultuado no meio acadêmico e intelectual, desde que sua obra começou ser traduzida, nos anos 80. No ano de 2000, um americano defende a tese "BRAZILIAN LITERATURE OF TRANSGRESSION AND POSTMODERN ANTI-AESTHETICS IN GLAUCO MATTOSO".
Em 2002, páginas do JORNAL DOBRÁBIL, de Glauco, integram o número de maio da revista americana Art In America. Marco histórico para o reconhecimento da arte brasileira no exterior, ela traz duas importantes matérias sobre o tema: uma delas se refere à mostra Brazil Body and Soul, realizada no Museu Guggenheim de Nova York; a outra trata da primeira mostra internacional de poesia visual brasileira, consistindo numa ampla cobertura e análise sobre a exposição Brazilian Visual Poetry. Além de Glauco, integram a mostra nomes como Arnaldo Antunes, Augusto de Campos, Décio Pignatari, Haroldo de Campos, Hélio Oiticica e Millôr Fernandes, dentre outros. (A versão on-line da mostra pode ser visitada em sua edição integral no site da Agência Imediata, nos EUA).
A entrevista a seguir me foi concedida em 28/04/2002.
Glauco também autorizou-me a adaptar toda sua obra para teatro e cinema.
A seguir, soneto inédito que Glauco enviou-me em 16/04/2002, e, na seqüência, soneto que o poeta dedicou a mim, em 15/06/2003:

CONTO DOMINGUEIRO [Soneto 438]

Contava o jornalista ao jornaleiro
dos podres dos políticos a lista.
Contava o jornaleiro ao jornalista
quem é, no quarteirão, mais fofoqueiro.

Na banca, em meio a fotos de traseiro,
manchetes dão: POLÍCIA NÃO TEM PISTA;
Enquanto se folheia uma revista,
os dois passam a limpo o galinheiro.

Um cego, bengalando, anda por perto.
"Aquele é que é fodido!", aponta o foca.
Já longe, mas de ouvido bem aberto,

o cego escuta os risos e a fofoca.
Consigo pensa: "Até que ele está certo...",
mas, lúcido, por ambos não se troca.


SONETO 691 PERFORMADO [a Denise Duarte]

Maior fanfarronada, mais lorota
que a tela traz nas séries, ninguém cria.
Diálogos são falsos, como é fria,
fajuta, de três dólares a nota.

Exemplo é o que, arrogante, o bruto arrota:
"Eu bem que sua língua arrancaria
se já não precisasse dela, um dia,
a fim de manter limpa a minha bota!"

Na prática, o vilão só se desmente,
pois nunca tal ação se concretiza.
Se eu fosse o roteirista, ah, minha gente!

O ator que faz a vítima, de brisa
viver não mais podia! Convincente,
lambia em cena a sola que lhe pisa!

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ENTREVISTA

Foto: Rubinho Chaves

ROTEIROS ON LINE - Glauco, como é seu dia-a-dia hoje? A que horas costuma acordar, a que horas dorme? Você tem uma rotina para seu trabalho? Quantas horas escreve por dia? Costuma sair todos os dias?
GLAUCO MATTOSO - Essa é uma de muitas contradições da minha personalidade. Embora tido como excêntrico e desregrado, sempre fui metódico e meticuloso. Depois de cego, me apeguei ainda mais à rotina, até para não me desestruturar por completo, pois se não observasse horários perderia a noção de dia ou noite, uma vez que não sei se está claro ou escuro. Assim, procuro seguir meu relógio biológico e adaptá-lo ao serviço de hora certa da telefônica. Acordo entre 7 e 8, ouço um pouco de rádio antes de levantar da cama, pingo colírios para controlar a pressão (sem os quais o olho já cego endureceria até a petrificação sob dores insuportáveis), preparo meu café como um ritual de paciência (já me acostumei com a posição de canecas, leiteira, colheres, açucareiro, manteigueira, etc.), passo boa parte da manhã sentado no vaso e massageando o abdome para vencer a prisão de ventre, tomo banho, me barbeio e, se durante a insônia da noite passada compus e "salvei" mais um poema na memória, ligo o computador falante e digito a nova obra para salvá-la de verdade. Aproveito para pôr em dia outros textos digitalizados, como por exemplo a resposta a esta entrevista. Caso não haja poema novo, abro o computador para enviar e receber os "emeios". Concluo essa operação entre 10 e 11, quando encomendo o almoço que será entregue na portaria do prédio ao meio-dia. À tarde ouço rádio (apenas estações noticiosas), trabalho mais um pouco no computador se houver coisa pendente, depois desço ao jardim do condomínio para tomar ar e ouvir mais rádio no walkman, sentado num daqueles duros bancos de praça e atordoado com a gritaria da molecada na piscina do prédio vizinho. Janto às 18, pingo de novo os colírios, acompanho pelo som o noticiário da TV (Boris Casoy) e passo o resto do tempo ouvindo CD no fone de ouvido, até dar sono. Deito por volta das 23, após mais um colírio e um comprimido para o intestino preso. Essa é a rotina quando estou só. Quando meu companheiro Akira está presente, alguma coisa muda, pois o tempo a mais que ficamos na cama é compensado pela agilidade dele em preparar café, almoço ou janta, já que o rapaz se vira muito bem na cozinha e em outros afazeres domésticos, além do inglês (língua que leciona) e da literatura (que compartilha comigo quando tem tempo de me ler em voz alta). É ele, inclusive, quem me acompanha no passeio pelo quarteirão, pois já não me arrisco sozinho, de bengala, cara e coragem, naquela calçada selvagem.
ROL - Como é perder a autonomia para uma pessoa ativa e intensa como você?
GM - Quando, após a última cirurgia (1995), saí do hospital já sem enxergar nada, foi como se a vida estivesse acabada. Nem segurar um garfo eu conseguia. Tudo me caía das mãos, em tudo eu tropeçava. Achei que nunca mais iria comer sem que alguém me desse na boca. Experimente vendar os olhos, sentar-se à mesa e se servir, talheres, copos, facas, pratos, vasilhas, sem enxergar. Você vai ver o que um papagaio faz com uma banana! Mas aos poucos fui me habituando e hoje faço tudo com calma, apalpando em volta até me certificar que tipo de objeto está na minha frente. Uma vez por semana vem uma faxineira fazer a limpeza. O resto do tempo mantenho as coisas sempre no lugar, desde discos até remédios. Quando o Akira não cozinha, a comida vem pronta da rotisseria.
ROL - Quais características diferenciam sua obra antes e após a cegueira? O que mudou em seu processo criativo? O que mudou no conteúdo? Mudou a forma?
GM - Mudou tudo. Eu fazia poesia visual, concretismo misturado com arte datilográfica, roteirizava quadrinhos, editava meus zines, colaborava na imprensa alternativa e teorizava sobre obra alheia em qualquer mídia. Lia muito, era cinéfilo, devorava gibis. Com a cegueira, fiquei reduzido à memória. Com o computador falante, recuperei a capacidade de redigir, mas agora só posso imaginar linhas escritas, texto puro, poesia em versos, quanto mais metrificados e rimados, melhor. O soneto e a décima, além do haicai e do limerick, são meus moldes mais trabalháveis. Ritmo e rima ajudam a reter mnemonicamente o que foi composto durante as insônias, até que eu possa passar para o computador. Mas o que mais mudou foi a temática. Os mais desatentos acham que continuo insistindo na mesma tecla (escatologia, sadomasoquismo, taras, violência, fetichismo, sexo sujo), mas tais temas, sob a "ótica" atual da cegueira, ganharam dimensão inteiramente diferente, agora pateticamente angustiante em vez de meramente lúdica e cômica. Meu humor, mais negro do que nunca, serve agora de ironia para encarar minha desgraça e, com ela, as injustiças de outros sofredores.
ROL - O que o inspira? Você poderia falar um pouco das influências sobre sua obra? Os clássicos, modernos, Borges, fatos do dia-a-dia?
GM - Como tive formação de bibliotecário (aliás como Borges), li um pouco de tudo. Minha erudição tem base filosófica e teor enciclopedista. Mas minha linha de influência é aquela onde convivem a sabedoria e a sátira, a cultura e a paródia. Espíritos voltaireanos tipo Millôr são os que mais me fazem a cabeça. Além disso, o lado chulo da linguagem sempre me fascinou pelo que tem de "proibido" e transgressivo, daí meu fraco pelos fesceninos e francamente pornográficos, de Marcial e Catulo a Sade e Masoch, de Gregório a Bocage, de Genet a Réage, de Laurindo Rabelo a Moysés Sesyom. Borges participa desse panteão como uma espécie de santo padroeiro ou bibliotecário-chefe.
ROL - Por falar em Borges, lhe incomoda a comparação? São muitas as coincidências e o paralelo acaba se tornando inevitável.
GM - A comparação não me incomoda, até ajuda a dar mais respeitabilidade à minha obra, mas há menos motivos para comparação em nossas obras que coincidências a apontar em nossas vidas, tipo formação de bibliotecário e informação de bruxo, atração pelo tipo oriental (ele com Maria Kodama e eu com Akira), a cegueira e a criação mental memorizada. Até fiz sonetos a respeito, reproduzidos no ensaio "A Negação do Negro", onde comparo minha "visão" pessimista da cegueira com a otimista de Borges.
ROL - Qual sua relação com a música? O que você ouve hoje e o que já curtiu muito?
GM - Sempre curti rock, mas como não tive chance de aprender a tocar guitarra. Me imaginava vocalista das bandas preferidas na juventude: Beatles, Byrds, Kinks, Creedence. Mais tarde minha fantasia se contentaria em ser letrista. Passada a adolescência, pesquisei muito a velha guarda da MPB e cultuei Carmen Miranda, Mário Reis, Lamartine e Noel. Dos mais recentes, meu interesse vai de Adoniran a Tom Zé, de Cazuza a Renato Russo. E já que produzo e edito CDs de rock tribal em meu selo Rotten Records, tenho que curtir punk, psychobilly, hardcore, ska e outras tendências alternativas ao pop comercial. Como contrapeso, nas horas mais solitárias ouço música barroca (sonatas para cravo de Scarlatti, por exemplo) ou folclórica (modas de viola de Helena Meirelles, por exemplo).
ROL - Quando você enxergava, era um cinéfilo e LARANJA MECÂNICA foi um filme marcante para você. Gostaria que falasse um pouco de cinema, filmes, roteiristas e diretores dos quais gostava e se lembra.
GM - Meu fanatismo por LARANJA MECÂNICA não se deve só ao fato de conter a cena mais bem realizada de lambeção de sola de sapato em close, mas pela adaptação bem sucedida dum livro fascinante e complexo. Junto com 1984, é caso de filme que fica à altura do livro em que se baseia, ao contrário da grande maioria tipo PAPILLON, A MORENINHA, MACUNAÍMA, O NOME DA ROSA ou DRÁCULA. Isso tem a ver com os diretores e, também, com os roteiristas, claro. Estranhamente, não tenho boa memória para elencos e fichas técnicas como tenho para verbetes e bibliografias, mas acho que cabe reproduzir um depoimento recente que dei a Daniel Almeida, do sítio da Som Livre, sobre preferências cinematográficas. Lá vai:
  • 1 - Bom para se xingar... (filmes, cineastas, atores)
    • Desde criança eu tinha raiva de musicais. Meus pais curtiam aqueles do Nelson Eddy e da Jeanette McDonald, mas eu não detesto nenhum em particular: odeio todos, indistintamente, exceto os que conseguiram captar algo da minha paixão rockeira e do clima contracultural da minha geração, como TOMMY. Os hollywoodianos, tipo SETE NOIVAS PARA SETE IRMÃOS, nunca me fizeram a cabeça. Fora disso, nunca aceitei outro James Bond que não fosse o Sean Connery, e tinha ódio mortal quando alguém falava que o Roger Moore era o "principal" 007. Pra mim o Roger não passava do Ivanhoé do seriado de TV. Por falar em seriados, o que eu mais detestava era aquele da FEITICEIRA (ou seria JEANNIE É UM GÊNIO?), principalmente quando ela mexia o nariz pra fazer suas mágicas funcionarem. Também me irritavam as cenas de beijo na boca dos clássicos americanos: não pelo beijo em si, mas pela meia hora que demorava até que a boca da mulher se aproximasse da do homem. Por que cargas d'água ninguém rodou uma cena em que um pé fosse beijado daquele jeito, em câmara lenta? Sempre achei as cenas de pé beijado muito rápidas, não sei por quê...
  • 2 - Fizeram meus olhos sorrir...
    • Primeiro foram aquelas séries que me faziam rir de boca escancarada: Três Patetas, Gordo e Magro, Agente 86, I love Lucy, isso pra não falar nos desenhos do Tom & Jerry ou da Pantera Cor-de-Rosa. Depois meu riso sádico substituiu a gargalhada de circo, quando assisti O CANGACEIRO, primeiro de muitos clássicos da crueldade, dentre os quais o último visto antes da perda da visão foi o do canibal Hannibal (O SILÊNCIO DOS INOCENTES). Mas meus olhos se extasiavam mesmo era quando algum pezão masculino aparecia em primeiro plano, de preferência na cara de alguém, como em CRIMES DE PAIXÃO, PAIXÃO SELVAGEM, MINHA ADORÁVEL LAVANDERIA, UMA FESTA DE PRAZER e o mais indelével de todos, LARANJA MECÂNICA.
  • 3 - Os pés mais adoráveis da sétima arte...
    • Nem sempre o pezão masculino aparecia descalço, e era até interessante que só aparecessem botas pesadas, surradas, empoeiradas e difíceis de lamber, mas pelo que me lembro o pezão descalço mais desejável era o de Joe D'Alessandro em PAIXÃO SELVAGEM, pisando bem na boca da Jane Birkin...
  • 4 - Aqueles italianos é que eram bons... (sacadinha sem graça com seus antepassados)
    • Independentemente dos pés em close ou em pose sadomasoquista, sempre curti a filmografia italiana, cujos papas são pra mim realmente os bambambans: Pasolini (principalmente SALÓ e MIL E UMA NOITES), Fellini (tanto os PB como os coloridos tipo JULIETA DOS ESPÍRITOS ou CASANOVA), Bertolucci (aquele monumento ao século XX [o 1900] e aquele outro à China [O ÚLTIMO IMPERADOR] são piramidais), quase todos os da Lina (MIMI, O METALÚRGICO; PASQUALINO SETE BELEZAS; POR UM DESTINO INSÓLITO; AMOR E ANARQUIA; TUDO CERTO MAS NADA EM ORDEM...), mas me marcaram um PB, A BATALHA DE ARGEL e um colorido, UM DIA MUITO ESPECIAL (UNA GIORNATA PARTICOLARE), onde o Marcelo e a Sofia me comoveram até as lágrimas.
  • 5 - Preferiria não ter visto nada...
    • Acho que aqueles musicais americanos, com cenas de sapateado. Nunca entendi por que o Gene Kelly ou o Fred Astaire são tão endeusados. Só aquele barulhinho dos sapatos tamborilando já me irritava. Talvez porque eu prefira sapatos mais pesados e rudes, pisoteando caras humanas em vez de calçadas empoçadas... Sei lá.
  • 6 - Um fotograma que não sai da minha retina...
    • Ah, sem dúvida nenhuma, sem pestanejar e sem parar de babar: é aquele close da cara do Malcolm McDowell debaixo duma sola, a língua saindo da boca e lambendo o sapato por baixo em LARANJA MECÂNICA. Tenho tamanha fixação naquela cena que pus o fotograma no meu site e não me canso de citar a cena em prosa e verso.
  • ROL - No curta POLIDAMENTE CORRETO e no vídeo REFLEXO SOLAR, este último criado para participar do Festival Mundial do Minuto, qual foi sua participação? Como é a linguagem do roteiro para você?
    GM - Tenho mais familiaridade com o texto teatral, desde quando atuei no teatro amador na década de 70, num grupo que montava dramaturgos do absurdo tipo Arrabal e Ionesco. Também li muito Nelson Rodrigues, Plínio Marcos e outros malditões. Mas roteiro propriamente dito, script de TV ou cinema, com indicações de seqüências e planos, tabulado em colunas, cronometrado e mastigadinho cena a cena, esse tipo de linguagem eu nunca pratiquei, profissional ou amadoristicamente. No caso das obras de Almir Almas, a roteirização em si, no papel, cabe a ele como professor nessa área, pois minha parceria se dá mais no campo do argumento e das sugestões práticas, que Almir sempre detalhou informalmente comigo, uma vez que pouco posso esquematizar por escrito num computador limitado ao texto puro. Na época em que roteirizei quadrinhos com Marcatti foi diferente, pois eu fazia o "rough" encaixando esboço do desenho, balões e recordatórios com texto incluso, mas sem visão não posso sequer tabular colunas para margear rubricas e diálogos. Enfim, é algo que está fora do meu alcance, como a computação gráfica ou a diagramação.
    ROL - Você leu Syd Field? Muita gente na área é contra, outros a favor.
    GM - Nunca li tais manuais. Quem os adotou em aula (com Doc Comparato e outros) foi meu parceiro Almir Almas, que hoje leciona direção de TV e produção de cinema na ECA (USP). Acho que a previsibilidade de Field, com seus gráficos e cronogramas, não se aplica à parceria de Almir comigo, já que trabalhamos num campo mais alternativo e experimental. Se no vídeo do minuto pareço regrado pelo cronômetro é porque raciocino intuitivamente, obedecendo a meu lado apolíneo. Quanto ao roteiro de POLIDAMENTE CORRETO, Almir o cronometrou em nove minutos e esquematizou-o no papel nesse formato técnico de que tratam os cursos, mas sem a preocupação fieldiana de preencher expectativas condicionadas. O filme não chegou a ser rodado, mas Almir já utilizou o roteiro em classe como exemplo de infidelidade ao fieldismo.
    ROL - Você acha que o Brasil de hoje é "contra a cultura"? Aliás, há cultura hoje no nosso país? Não falo da cultura popular, mas do ensino, da leitura, da criação. Você podia falar um pouco disso?
    GM - Não há muito o que falar. Tudo se resume no ditado "Em terra de cego, quem tem um olho é rei", que o brasileiro já avacalhou como "Em terra de cego, quem tem um olho é caolho" ou "Em terra de olho, quem tem um cego... ERREI". Ou ainda como digo eu: "Em terra analfabeta, quem soneta é poeta"... O fato é que, se só Buenos Aires tem mais livrarias que o Brasil inteiro, que se pode esperar do nível de exigência dessa indigência cultural? Isso explica por que Getúlio Vargas e Sarney entraram para a Academia Brasileira de Letras enquanto Millôr ou Glauco Mattoso são considerados humoristas em vez de filósofos, isto é, não são levados a sério. Mas não sou de todo pessimista, pois não penso só em termos de cultura letrada ou de comunicação de massa: valorizo a verdadeira cultura popular, que ainda resiste na tradição oral ou na literatura de cordel, e cujo patrimônio jamais se perderá, do mesmo modo que o soneto ou a glosa jamais deixarão de ser compostos, ainda que o sejam por um número cada vez menor de praticantes e conhecedores...
    ROL - Após eu ter lido seu livro PANACÉIA, achei interessante encerrar essa entrevista com sua opinião sobre o que sente em relação à situação política, corrupção, ou seja, disso tudo em que estamos mergulhados no nosso país...
    GM - O livro PANACÉIA pode parecer uma metralhadora giratória contra muita vidraça visível, mas prefiro responder com dois sonetos de outro livro, PAULISSÉIA ILHADA (1999):

    SONETO 190 REDUNDANTE

    Pediram-me um escândalo, e é pra já.
    Malversação de fundos? Nada disso.
    O seio da modelo, que é postiço,
    também já não excita a língua má.

    A droga nas escolas? Ninguém dá
    a mínima importância ao desserviço.
    Seqüestro de empresário? Algum sumiço?
    Remédio adulterado? Quá! Quá! Quá!

    A fraude eleitoral virou rotina.
    As contas no exterior não causam pasmo.
    Ninguém estranha o cheiro da latrina.

    Até Matusalém já tem orgasmo!
    Só resta a comentar, em cada esquina,
    que o cego é chupa-rola... Um pleonasmo!



    SONETO 171 FISIOLÓGICO

    Quem disse que a política não fede?
    O esgoto do Congresso é prova disso.
    Parlamentar que quer mostrar serviço
    bem sabe donde a prática procede.

    Do vaso, e não das urnas, vem e mede
    tamanho e proporção dum trem roliço.
    E quem quiser meter o dedo nisso
    esteja onde o governo tem sua sede.

    Ministros já instalaram gabinete
    no espaço mais propício à sua função:
    Despacham no recesso da retrete.

    Quem faz, por outro lado, oposição
    critica a fedentina do tolete
    propondo obrar com força e retidão...


    Glauco Mattoso autorizou Denise Camillo Duarte a adaptar toda sua obra para teatro e cinema.
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    OBRA


    Glauco e seu companheiro Akira, em 13 de junho de 2003

    • JORNAL DOBRABIL - 1977/1981 - edição do autor (53 números em 1 vol.)
    • REVISTA DEDO MINGO - edição do autor (2 fascículos)
    • O QUE É POESIA MARGINAL - Ed. Brasiliense, 1981.
    • LÍNGUAS NA PAPA - Editora Pindaíba, 1982.
    • MEMÓRIAS DE UM PUETEIRO - Editora Trote , 1982.
    • O QUE É TORTURA - Ed. Brasiliense, 1984.
    • O CALVÁRIO DOS CARECAS: HISTÓRIA DO TROTE ESTUDANTIL - EMW Editores, 1985.
    • MANUAL DO PEDÓLATRA AMADOR: AVENTURAS E LEITURAS DE UM TARADO POR PÉS - Ed. Expressão, 1986.
    • ROCKABILLYRICS - 1988.
    • ESTRADA DO ROCKEIRO: RAÍZES, RAMOS E RUMOS DO ROCK BRASILEIRO - Encarte da revista SOMTRÊS, 1988.
    • LIMEIRIQUES E OUTROS DEBIQUES GLAUQUIANOS - Ed. Dubolso, 1989.
    • DICIONARINHO DO PALAVRÃO INGLÊS/PORTUGUÊS - Ed. Record, 1990.
    • AS AVENTURAS DE GLAUCOMIX, O PEDÓLATRA (ilustrado por Marcatti) - Editora Abriu-Fechou, 1990.
    • ESPÍRITO DE 69: A BÍBLIA DO SKINHEAD - Tradução da obra de George Marshall, Trama Editorial, 1993.
    • FERVOR DE BUENOS AIRES - Tradução em conjunto com Jorge Schwartz da obra de Jorge Luís Borges, 1999.
    • CENTOPÉIA: SONETOS NOJENTOS E QUEJANDOS - Ed. Ciência do Acidente, 1999.
    • PAULISSÉIA ILHADA - Ed. Ciência do Acidente, 1999.
    • GELÉIA DE ROCOCÓ - Ed. Ciência do Acidente, 1999.
    • PANACÉIA: SONETOS COLATERAIS - Nankin Editorial, 2000.
    • JORNAL DOBRABIL - Ed. Iluminuras, 2001 (reedição).
    • GALERIA ALEGRIA - Editora Memorial, 2002.
    • DONO MEU: SONETOS ERÓTICOS - (Introdução e tradução de Glauco Mattoso). Autor: Salvador Novo. Editora Memorial, 2002.
    • CONTOS FAMILIARES: SONETOS REQUENTADOS - Coleção 100 (Sem) Leitores, outubro de 2003.

    SITES


    Selo das produções em CD do autor: http://www.rottenrecords.com.br
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    MAIS FOTOS


    Na foto da direita, eu e meu poeta preferido

    Glauco e Akira

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