1o. Encontro Internacional de Televisão


RESUMO DO EVENTO

Participei no período de 3 a 5 de outubro de 2001, no Hotel Glória, no Rio de Janeiro, do 1o. Encontro Internacional de Televisão. A seguir, um resumo dos debates e colocações dos 24 participantes. Em alguns casos há apenas comentários e, em outros, trechos na íntegra. Alguns depoimentos estão bastante sucintos e outros mais longos por problemas técnicos: levei um gravador e não deu para gravar tudo. Veja mais detalhes do evento no site do Instituto de Estudos de Televisão, que organizou e promoveu o evento. Posteriormente, o Instituto irá lançar um livro sobre o encontro, com tudo o que rolou durante esses 3 dias. (Vide minha opinião sobre o evento e mensagens recebidas sobre esta cobertura).


INTEGRANTES DAS MESAS

ABERTURA
1. O primeiro palestrante foi Orlando Santos Diniz, Presidente do Sesc do Rio de Janeiro, que começou o encontro colocando alguns dados estatísticos. Segundo esses dados, 87% dos lares brasileiros têm equipamento de televisão, os quais permanecem ligados mais de 4 horas por dia.
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2. Mauro Garcia - Tv e Poder
Substituto do Ministro de Estado da Cultura, suas colocações giraram em torno das relações entre TV e poder. Pontuou o papel da Rede Globo como substituta do discurso militar ditatorial e hegemônico no tocante ao monopólio da informação. Na verdade, salientou Garcia, a TV deveria ter a função de informar através de um diálogo real com o público. Afirmou também que a TV deveria estreitar as relações com a produção independente. Falou,ainda, sobre a emissora do Minc, TV Cultura e Arte, de canal fechado.
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3. Helena Severo: "A TV é um filtro das situações existentes na sociedade".
A Secretária de Cultura do Estado do Rio de Janeiro levantou questionamentos bastante relevantes para um pensar mais aprofundado sobre o papel da TV no país. Inicialmente, se referiu ao preconceito acadêmico relativo à essa reflexão, o qual, segundo ela, vem sendo reduzido nos últimos tempos. Algumas das questões levantadas:
  • A TV como implementadora de uma linguagem nova: segundo Helena, ela é um instrumento inovador com linguagem própria.
  • O impacto da TV na sociedade como um todo: a TV forma hábitos ou reproduz a cultura de uma classe? Ela é um filtro das situações que existem na sociedade brasileira, disse a Secretária.
  • A TV impõe uma estética ou a reproduz?
  • A TV monolítica: ela decide comportamentos?
  • A relação entre TV e cinema: segundo Helena, se pensa mais sobre cinema. Nesse ponto, falou sobre os projetos que a Secretaria têm apoiado no Estado do Rio, como a criação do Pró-Cine, do apoio ao documentário, da produção independente de cinema. E levanta uma última questão:
  • Como fica a produção independente neste contexto?
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4. Por último, Nelson Hoineff, Diretor do Instituto de Estudos de Televisão, salientou a importância do evento e dos temas que seriam discutidos durante o mesmo.
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CULTURA, TELEVISÃO E MOVIMENTOS REGULATÓRIOS
1. Roberto Franco: "A tecnologia digital vai trazer novas oportunidades de negócio".
Franco, Vice-Presidente Executivo da Rede Record, fez um panorama da TV hoje, no Brasil, sob o ponto de vista da incorporação da nova tecnologia digital.
  • Sistema Analógico X Digital: a TV digital significa uma evolução ou uma revolução? Franco afirma que o que vai determinar isso será a mudança ocorrida nos fatores econômicos, sociais e políticos. Segundo ele, deve-se analisar se apenas um deles muda: trata-se de uma evolução. Por outro lado, se todos mudam: trata-se de uma revolução. E Roberto Franco acredita que estamos assistindo, justamente, a uma revolução.
  • O ponto chave dessa questão é a adoção = é necessário que essa revolução chegue à grande massa, o que ocorrerá de forma gradativa.
  • A nova tecnologia vai trazer novas oportunidades de negócio.
  • Os pontos críticos apontados por ele são:
    • mercado: quais são? quais suas fronteiras? quais seus líderes?
    • competição: quem são os adversários e parceiros?
    • clientes: quais seus valores? como atingi-los?
    • produtos e serviços: qual o melhor mix?
    • organização: qual o modelo?
    • financiamento/investimento/propriedade
    • regulamentação/legislação
  • O Estado precisa criar uma política nacional para:
    • a indústria;
    • a informação, telecomunicações e comunicação social;
    • a educação;
    • a produção cultural.
  • Roberto Franco finaliza colocando sua posição sobre a TV:
    • é a principal ou única opção de entretenimento para a população mais carente;
    • é o maior produtor e distribuidor do conteúdo nacional;
    • integra a federação, preservando o idioma e a cultura nacional;
    • democratiza a informação;
    • propicia a mobilização nacional, ao estabelecer e divulgar campanhas educativas e ligadas à saúde.
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2. Marcus Pestana: "A TV no Brasil é livre".
Pestana, Chefe de Gabinete do Ministério das Comunicações, falou de diversos aspectos ligados a TV no Brasil, mas seu foco foi a regulação. Assim como Roberto Franco, da Record, afirmou que a TV mantém a unidade nacional, democratiza a informação e preserva a identidade nacional. Como Helena Severo, Secretária da Cultura/RJ, também crê que a TV não tenha um discurso unilateral, ou seja, ela não só reproduz a sociedade, como também reflete os padrões dessa sociedade. No tocante à regulação, acredita ser necessário um debate maior sobre conteúdo que não passe pela censura, lembrando que a TV no Brasil é livre. Para ele, deve se aplicar uma boa regulação, que seja: econômica, com regras transparentes, clara e que traga benefícios à população.
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3. Leonardo Dourado - A luta da produção independente no Brasil.
Dourado, Diretor da ABPI - TV (Associação Brasileira de Produtores Independentes de Televisão), falou sobre a luta dos produtores independentes no Brasil e trouxe dados esclarecedores sobre o tema. A produção independente é muito mais representativa em canais de TV a cabo: a grade do GNT, em horário nobre, é quase toda de produção independente assim como a programação da TV Futura e do Sport TV. As dificuldades dos independentes são inúmeras:
  • assumem todos os riscos;
  • vivem das leis de incentivo;
  • têm que moldar seus programas aos interesses dos patrocinadores;
  • há pouco espaço em redes abertas para a produção independente.
Fora do Brasil, lembrou Dourado, as emissoras são obrigadas a destinar um percentual às produções independentes. Por último, salientou que a criação da Ancine (Agência Nacional de Cinema) vem prejudicar ainda mais a difícil situação dos independentes no Brasil.
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4. Flávio Cavalcanti Jr., Diretor-Regional do SBT Brasília, realmente me impressionou. Eu era pequena quando seu pai atuava, mas ainda me lembro de sua figura e, por isso, fiquei impressionada com a semelhança entre pai e filho. Foi como se eu estivesse vendo a reencarnação de Flávio Cavalcanti: os gestos, a voz, as expressões. Uma pena, porém, que sua posição tenha sido radicalmente contrária à produção independente e às colocações de Leonardo Dourado. Achei, inclusive, seus argumentos muito inconsistentes em relação a esse tema. No debate do último dia concordou com Lauro César Muniz e Del Rangel, este da Record, na constatação de que faltam novos roteiristas, novos autores para televisão, o que é uma boa notícia para os que querem seguir a profissão. Mas fica uma pergunta: como entrar nesse mercado tão fechado? Para muitos jovens roteiristas, a resposta permanece um mistério.
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5. Evandro Guimarães - Produção, Programação e Distribuição
Guimarães, Vice-Presidente da Abert, falou sobre produção, programação e distribuição de conteúdo audiovisual nacional e defendeu a necessidade de fomento à produção independente. Mostrou-se também favorável a existência de mecanismos de controle sobre os conteúdos.
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(Manhã do 2o. dia) - TELEJORNALISMO E FORMAÇÃO DE OPINIÃO
1. Eugênio Bucci: "Nossa época superou o paradigma dos meios de comunicação de massa".
Bucci, colunista do Jornal do Brasil, como pensador e crítico que é, trouxe reflexões muito apropriadas sobre o poder de influenciar pessoas que a TV tem. Enfatizou a ótica do desejo na formação da opinião pública. Algumas questões levantadas por ele:
  • a formação da vontade é algo próximo ao papel da imprensa e da esfera política na formação da opinião pública;
  • a opinião pública é muito mais influenciada pelas novelas do que pelo telejornalismo, porque muitos temas polêmicos colocados nas telenovelas levam o público à reflexão;
  • ao invés de opinião pública se deveria falar em humores de mercado político;
  • formação de uma opinião pública global = a idéia de opinião pública é escrava da idéia de espaço público e a idéia de espaço público é escrava da idéia de espaço nacional;
  • nossa época superou o paradigma dos meios de comunicação de massa;
  • onde está a instância de controle desse processo? (de formação de opinião pela TV).
Durante os debates desta mesa, juntamente com Boris Casoy e Amauri Soares, este da Globo, Bucci considerou gravíssimas as acusações de Boris sobre o tráfico de influência na TV. Nesse sentido, defendeu a Globo das acusações de Boris e salientou os benefícios que ela trouxe ao país, além do papel de destaque que tem no ranking internacional de emissoras de TV. Boris, Bucci e Amauri levantaram, também, a questão da má formação do jornalista brasileiro e da conseqüente distorção da notícia. Bucci disse que os jornalistas lêem pouco, não se especializam, são preconceituosos e despreparados, distorcem informações, são desinformados.
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2. Amauri Soares: "O telejornalismo tem um poder de influência que nenhuma outra forma de informação teve sobre o planeta".
Amauri, Diretor-Executivo da Central Globo de Jornalismo, falou sobre o poder do telejornalismo junto ao público e foi bastante criticado por Boris Casoy ao afirmar que, "sob o ponto de vista de negócio em TV, a Globo é a única emissora que vive exclusivamente de seus intervalos comerciais."
Afirmou também que a TV é o único meio de comunicação da maioria da população brasileira.
Sobre a formação da capacidade de opinião que o telejornalismo tem, disse que ele é um instrumento de formação crítica. Não crê em opinião pública totalmente hegemônica e abrangente, consensual. Para ele, o telejornalismo tem um poder de reverter esse processo.
Falou, também, da experiência do projeto de jornalismo comunitário da Globo, que tem 4 anos.
Durante os debates, no tocante à má formação do jornalista, disse que os jovens profissionais são arrogantes, prepotentes e despreparados.
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3. Boris Casoy: "Se o senhor Roberto Marinho pode opinar, por que eu não posso?"
Boris, Editor-Chefe do Jornal da Record, tocou em temas polêmicos em TV e o fez com a mesma naturalidade e autonomia com que costuma tecer comentários incisivos em seu telejornal, sem medo de represálias. Não poupou seu colega de mesa, Amauri Soares, da Rede Globo, de críticas direcionadas à emissora. No tocante aos aspectos abordados em sua palestra, falou mais especificamente do controle sobre a TV e contou um pouco de sua história, de como começou em rádio e no telejornalismo da Record. Abaixo, alguns dos temas levantados por ele.
  • "Governar é comunicar" - Disse que esse é o lema do governo hoje e, segundo ele, comunicação é praticamente televisão. Essa utilização da TV pelo Estado visa à manutenção do status quo.
  • Audiência - Na TV, hoje, a predileção da audiência é pelo formato jornalístico, porque, supostamente, tem credibilidade e retrata a realidade.
  • Concessões - Para Boris, as concessões de emissoras de rádio e TV foram feitas de maneira injusta no Brasil e seguindo critérios políticos. "Todas as concessões, sem exceção, seguem esse modelo. As coisas hoje melhoraram, mas as renovações são ainda difíceis e não tão democráticas como deveriam ser. Ainda estão ancoradas em alicerces políticos, eleitorais, fazendo parte do jogo econômico, do jogo de interesses", disse ele.
  • Opinião na TV - As TV's e rádios não tinham opinião mesmo antes do regime militar. Era melhor que se mantivessem neutras, completou Boris..
  • Tráfico de influência - Criticou Amauri Soares, que afirmou que a Globo é a única emissora que vive exclusivamente de seus intervalos comerciais. Boris rebateu dizendo que "todas as emissoras, sem exceção, receberam e recebem generosas verbas publicitárias." Disse que a Globo recebe verbas também de bancos, negócios no exterior, no governo, tem uma Fundação, assim como a Record recebe dinheiro da Igreja.
  • "Se o senhor Roberto Marinho pode opinar, por que eu não posso?" - Boris criticou o fato dos jornalistas não poderem dar opinião e disse que, hoje, alguns já desfrutam de uma certa autonomia. Citou como exemplo dessa abertura o caso do jornalista Chico Pinheiro, da Globo/SP, que emite sua opinião no telejornal que apresenta. Criticou muito a Globo e seu controle sobre a informação. Nesse ponto, Boris falou de sua luta para opinar: "Se o senhor Roberto Marinho pode opinar, por que eu não posso?" "O âncora influencia", disse Boris, e "eu tenho total autonomia na Record, o que está em meu contrato."
Disse, também, que o telejornalismo brasileiro não fica devendo nada a nenhum país do mundo e que a TV e o rádio definem eleições.
No debate, Boris, Bucci e Amauri levantaram a questão da má formação do jornalista brasileiro e da conseqüente distorção da notícia. Boris chegou a dizer que tem medo de dar entrevista e ver seu discurso distorcido. Discutiu-se, ainda, o monopólio da Globo e Boris disse que hoje as concessões para TV estão começando a se pautar em outros critérios.
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(Tarde do 2o. dia) - AUDIÊNCIA, GRADE E RESPONSABILIDADE
1. Gabriel Priolli: "A responsabilidade da TV está atrás da grade, está aprisionada pelo modelo comercial que impera no meio em nosso país."
Priolli, Diretor da TV Puc/SP e crítico de TV, conceituou e analisou cada um dos temas da mesa e suas interligações. Seguem os pontos levantados por ele.
  • TV comercial X TV educativa - A diferença entre as duas reside no fato de que a TV educativa visa a qualidade em primeiro lugar, porque é financiada. Assim, a audiência não é o critério fundamental em que se pauta sua programação. A TV comercial, por outro lado, em busca de audiência, acaba comprometendo sua responsabilidade social.
  • Audiência X Satisfação - O que é audiência? Do ponto de vista do telespectador, o que leva as pessoas a darem audiência a um programa? O conceito de audiência, para Priolli, tem a ver com satisfação de desejos, gostos, instintos e preferências. Programar é satisfazer o telespectador, considerando a diversidade desses desejos e priorizando a faixa horária em acordo com a grade de programação.
  • A TV como empreendimento comercial - Ela é um serviço público concedido à exploração da iniciativa privada, explica Priolli. Dessa forma, a concessão autoriza o lucro. A audiência é encarada, então, como produtividade: quanto maior a audiência maior o lucro. A audiência é o objetivo central do negócio. A razão econômica prevalece na estratégia de negócio dessas empresas sobre qualquer valor moral.
  • A função social da TV - Se se pensar pela ótica de sua função social, disse Priolli, a televisão é um aparelho social fundamentalmente conservador na medida em que reproduz a ordem social vigente. "Não existe TV subversiva em nenhum lugar do mundo, que conteste o regime onde estão instaladas".Para ele, a TV é um órgão de manutenção do status quo, da ordem política e moral.
  • Sobre oferta de conteúdos - Priolli disse que a TV tanto libera quanto reprime conteúdos, ela sublima ou reprime a violência e a sexualidade.
  • Qualidade X Baixaria - Ele acha que os dois termos são usados de forma muito genérica e sem uma conceituação específica do que venha a ser cada um.
  • De que responsabilidade se fala em TV? A TV deve ser capaz de regular a oferta de conteúdos, no entender de Priolli. Ela deve delimitar quando liberar ou reprimir conteúdos de acordo com o gosto da moral média do país. "Como concessionária de serviço público a TV tem a responsabilidade de oferecer serviços de qualidade."
  • Legislação - A legislação determina que a TV tem função cultural e educativa e que devem ser reservadas 5 horas diárias para exibição desse tipo de programação, o que, na prática, não é cumprido, avaliou Priolli.
  • Panorama do mercado hoje - Aponta o fim da hegemonia da Globo, que vem perdendo audiência por uma série de fatores ligados a concorrência, como TV a cabo, vídeo cassete, internet, etc.
  • Perspectivas - Várias mudanças estão previstas no meio:
    • entrada da tecnologia digital;
    • entrada do capital estrangeiro, que vai reconfigurar política e economicamente o mercado e estabelecer novos parâmetros de competição;
    • discute-se uma nova lei para rádio e TV.
    E questiona: "Haverá omissão ou participação social nessas mudanças?"
  • "A responsabilidade da TV está atrás da grade - está aprisionada pelo modelo comercial que impera no meio em nosso país", finaliza.
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    2. Regina de Assis - A TV para crianças, adolescentes e jovens
    A Presidente da MultiRio falou da TV para crianças, adolescentes e jovens (até 21 anos) e da necessidade de controle, tanto estatal quanto doméstico, sobre os conteúdos para esse público, que é o maior consumidor de produtos televisivos, tanto em canal aberto quanto fechado. Disse, também, que esse público passa cerca de 5 horas diárias em frente a TV sem um adulto por perto. Falou da erotização na TV e do índice altíssimo de gravidez entre adolescentes.
    Durante o debate, esclareceu o que é a MultiRio - Seu início foi em 1995 como um braço direto da Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro. Walter Clark foi o primeiro Presidente da MultiRio. A empresa, sem fins lucrativos, é produtora, distribuidora de produtos para outras Secretarias e pode vender para canais privados. Seus programas vão ao ar pela Band (de 7:00/8:00h da manhã e de 14:00/15:00h) e pelo Canal 3, da Net (de 7:30 a 11:30h da manhã). Há previsão de expansão de exibição em horários de fim de semana e a noite em outro canal aberto, porque a MultiRio participa de uma licitação nesse sentido, no momento. Há também um portal na Internet.
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    3. Rogério Brandão: "O papel da TV é informar e entreter com inteligência".
    O Diretor de Programação da DirecTV centrou sua análise sobre três pontos: modelo, grade e conceito.
    • Modelo - Segundo Brandão, modelo se refere ao tipo de produto que se vai colocar no ar e para que público (estudos sobre concorrência, horário, o papel da censura e da responsabilidade da emissora).
    • Grade - Refere-se a como será montada a grade, quais modelos se quer construir.
    • Conceito:
      • mix - modelo de linguagem a ser usado;
      • jornalismo - local ou a vivo, regional ou nacional, telejornal ou formato de revista ou formato de debate;
      • entretenimento - filmes, shows, etc.
    Falou de seus trabalhos junto a TV Mix (na TV Gazeta), do Cine Trash (filmes B com apresentação de Zé do Caixão, que foram transmitidos pela Band), do Canal 21 (com matérias sobre trânsito, tempo e prestação de serviços), Canal 605 (canal de eventos com hora marcada para ocorrer, como shows). Outros temas levantados por Brandão:
    • A importância da criatividade em televisão - Salientou a necessidade de liberdade para poder ousar e passou sua fórmula que alia programação à criatividade e à técnica:
      • Programação = técnica + criatividade
      Para Brandão, o telespectador quer ser surpreendido e através desse elemento se consegue fidelizar a audiência. Por isso, a importância da criatividade e da inovação em televisão.
    • A flexibilidade deve privilegiar o telespectador - No seu entender, a grade não deve aprisionar a programação, ou seja, no caso de cobertura ao vivo, como ocorreu no caso do ataque aos EUA, ela deve, sim, se sobrepor à programação normal. Isso porque o telespectador é o foco da programação.
    Durante o debate disse enxergar com bons olhos a entrada do capital estrangeiro no país, pois acredita que vá trazer renovação ao setor e abrir novas oportunidades.
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    (Tarde do 2o. dia) - FICÇÃO E ESPETÁCULO
    1. Lauro César Muniz: " O grande sucesso da telenovela se deve a capacidade que ela tem de dialogar com seu público".
    O grande mestre da dramaturgia brasileira, Lauro César Muniz, mostrou-se bastante preocupado com a entrada do capital estrangeiro no mercado nacional. Tanto que esta foi a tônica de sua palestra.
    Inicialmente, divulgou a existência, desde o ano passado, da ARTV, Associação dos Roteiristas de Televisão, Cinema e Outras Mídias, da qual faz parte, cuja luta básica é o estabelecimento de uma cota de tela para exibição de teledramaturgia nacional, no intuito de se preservar o mercado interno da invasão das multinacionais.
    Sobre essa globalização e a possibilidade de união das Américas através da ALCA, disse que "ainda estamos muito despreparados para competir com gigantes como EUA e Canadá."
    É frente a essa nova realidade que a ARTV buscou amparo legal para tentar preservar a dramaturgia brasileira. As reivindicações dos roteiristas da Associação foram levadas até o Ministro das Comunicações, que inseriu parte delas no anteprojeto da nova lei das telecomunicações, que se encontra em discussão. Essa luta pretende também preservar a nossa identidade cultural.
    O dramaturgo e roteirista defendeu as telenovelas e afirmou que os sitcoms não refletem a nossa realidade: "o grande sucesso da telenovela se deve a capacidade que ela tem de dialogar com seu público, de falar a linguagem desse público", disse ele.
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    2. Régis Cardoso - A história viva da TV ao vivo
    Outro grande mestre da TV, o diretor Régis Cardoso, contou como era a TV ao vivo e um pouco de suas inúmeras experiências (porém, não pude gravar sua palestra).
    Em relação aos temas levantados, Régis, assim como Lauro César Muniz, também mostrou-se preocupado com a entrada do capital estrangeiro e com o futuro da teledramaturgia nacional. Durante os debates, também salientou a carência de bons roteiristas no mercado.
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    3. Del Rangel: "Uma programação popularesca, tendenciosa e vazia de conteúdo expõe e enfraquece o negócio TV aberta."
    Del Rangel, Diretor Artístico da Rede Record, assim como os palestrantes que o precederam, relatou sua preocupação em relação a entrada do capital estrangeiro e disse que o momento é delicado e perigoso para o setor nacional. Segundo ele, 40% do mercado investidor de publicidade migrou, nos últimos anos, para outras mídias que não a TV. O negócio TV aberta está se reduzindo, perdendo mercado.
    Mas o foco de sua exposição foi a análise dos problemas que a TV, como negócio, vem enfrentando nos últimos anos.
    Com o êxodo do capital oriundo da publicidade, há uma inquietação entre os dirigentes das emissoras, os quais, por sua vez, prestam contas a seus acionistas, "já que a TV é um negócio como outro qualquer", disse Rangel. Essa fuga de capital afeta o departamento financeiro e, conseqüentemente, o artístico das emissoras. A solução apontada por elas passa a ser, então, aumentar a audiência. Audiência maior significa maior faturamento. Conseqüentemente, passa-se a vender espaço. O investidor compra espaço. Esse levantar a audiência passa a ser o grande problema que a TV enfrenta hoje, porque, de acordo com essa estratégia, a busca pela audiência passa a ser imediatista, quantificada e não qualificada.
    Rangel esclarece que não necessariamente um produto que dá muita audiência fatura muito. Geralmente ele é o carro-chefe da emissora.
    Outro dado interessante trazido por Rangel: as classes A e B migraram sensivelmente, nos últimos anos, a partir de um determinado horário noturno, para a TV a cabo. O bolo da audiência em TV aberta fica, então, dividido entre os públicos C, D e E.
    Aí, vem a responsabilidade para os homens de TV, segundo sua opinião: a leitura equivocada dos dados das pesquisas de audiência pode trazer um prejuízo muito grande para esses veículos. "Uma programação popularesca, tendenciosa e vazia de conteúdo, expõe e enfraquece o negócio TV aberta", complementa. Logo que um programa desse tipo atinge um nível de audiência significativa, a concorrência corre atrás e começa um nivelamento por baixo. "Isso porque a busca de resultado é feita de uma maneira imediata, sem planejamento e sem uma reflexão sobre o mal que pode acarretar ao negócio e à qualidade do conteúdo."
    Durante os debates, Del também falou da carência de pessoal qualificado em TV, como autores, atores, figurinista, diretor e corpo administrativo.
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    4. Silvia Oroz: "A telenovela é um gênero autônomo."
    A historiadora enfocou a telenovela e afirmou que trata-se de um gênero autônomo em relação à literatura e ao cinema. Nesse sentido, ela tem uma linguagem própria.
    Silvia também afirmou que a telenovela é rejeitada pelas elites por ser considerada um gênero popular.
    Nos debates, salientou que a globalização acaba fazendo com que se mantenham as identidades culturais dos diferentes povos e, com isso, o futuro da telenovela nacional ficaria garantido.
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    (Manhã do último dia) - ROUPA SUJA SE LAVA NA TV
    1. Soninha: "É óbvio que a mídia educa, mas quando ocorrem distorções, educa mal."
    Soninha, apresentadora de TV e ex-MTV, procurou distinguir programa popular de "baixaria", fazendo da qualidade o elemento capaz de delimitar fronteiras entre um e outro.
    No seu entender, se generaliza muito em termos do que é popular ou programa de qualidade. Para ela, existe uma tendência em se classificar programas de acordo apenas com esses dois conceitos.
    Acha, também, que se confunde programa popular com baixaria. "Programas populares existem em todos os canais", disse, mas ela procurou classificar os que têm qualidade dos que não têm (estes últimos são os que considera "baixaria"). Dessa forma, listou alguns programas que considera populares e aos quais atribui qualidade: Casseta & Planeta, o Programa do Jô, Jornal Nacional, Globo Repórter, Fantástico, novelas, minisséries, Fala que Eu te Escuto (Record), Viola, Minha Viola.
    Os programas populares aos quais não atribui qualidade são: Programa do Sérgio Malandro e o Programa Livre (no novo horário). Disse também que muitos programas similares ela não consegue assistir mais do que alguns minutos e, por isso, não pode avaliá-los.
    Soninha distingue o que é popular do que é baixo nível: no baixo nível há o bate-boca, a fofoca, a apelação, preconceitos estéticos (gordos, loiras, etc.), colocar sexo na programação por qualquer motivo.
    Um baixo nível que considera mais sutil é o do merchandising de qualquer produto, onde o apresentador vende qualquer coisa.
    Um baixo nível para ela ainda mais sutil é o colocado em jogos de competição dentro de certos programas, onde rola um monte de preconceito.
    E outro bastante sutil é o quanto se gasta para fazer um programa para o "povão".
    Soninha afirma, ainda, que "é óbvio que a mídia educa, que ela influencia muito no sentido de comportamentos, conceitos. E ela, quando ocorrem tais distorções, educa mal."
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    2. Carlos Massa (Ratinho): "O programa popular é o último recurso da população".
    O apresentador do SBT, Ratinho, falou a um público que, salvo algumas exceções, não é o seu, mas não fez feio. Ao contrário, mostrou porque faz tanto sucesso. É um comunicador nato, inteligente, sensível e capaz de falar e ouvir a linguagem do povo.
    Relatou suas origens simples, filho de um pedreiro, e de seu pouco estudo. Disse que não entende nada de TV e que seu programa é o pior da televisão. Creio que pretendia se referir à visão da crítica, porque logo em seguida abordou esse assunto ao falar que seu programa "é o mais criticado da história da TV brasileira pela imprensa." Afirmou, repetidas vezes, que não tem nada a ensinar e que só tem a aprender.
    Em suas palavras, "fazer televisão é ter um pouquinho de sensibilidade para saber o que o povo gosta de ver."
    Aos que criticam seu programa, disse que "a TV é um espelho da sociedade." E disse mais: "Querer inventar televisão é conversa pra' boi dormir! Nós estamos a 500 anos agüentando as mesmas coisas."
    Criticou o fato de que programas baixarias só parecem existir fora da Globo: "Se passar na Globo é bom. Isso é uma grande mentira, uma hipocrisia", afirmou.
    Para Ratinho, "programa popular é aquele que o povo quer ver".
    Foi mais além ao dizer: "Se alguém quiser mudar a TV tem que mudar o sistema educacional. Por que então não se coloca o Telecurso, da Globo, ao invés de 5:30h da manhã, as 8:00 horas da noite? Essa hipocrisia eu não vou aceitar."
    Ratinho entende que "o programa popular é o último recurso da população". Nesse ponto, se referiu às falhas no sistema judiciário.
    Sobre o funcionamento de seu programa, disse: "Eu coloco no ar aquilo que eu acho que o povo vai gostar. No meu programa mando eu! Lá não tem diretor."
    Na visão de Ratinho, o programa popular presta uma grande contribuição à população.
    Por último, critica os telejornais por usarem termos que o povo não entende.
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    3. Cazé Peçanha: "A TV precisa buscar ir além de refletir a sociedade".
    Cazé, apresentador da Globo, não acrescentou muito ao debate. Repetiu algumas coisas que a Soninha já havia dito e ateve sua reflexão sobre programa popular basicamente centrada no programa do Ratinho. Inclusive houve algumas discussões entre ambos, onde Ratinho parece ter saído vitorioso.
    Cazé elogiou Ratinho, dizendo que ele tem um grande talento, que não tem estudo, mas é muito inteligente, tem o poder da palavra, que ajuda as pessoas em seu programa e ajudaria mais ainda se não as expusesse tanto.
    Concordou com a Soninha sobre programas que colocam situações de forma preconceituosa.
    Seguindo o pensamento de Ratinho, que defendeu seu programa dizendo que a TV é um reflexo da sociedade, Cazé foi mais adiante: "A TV precisa buscar ir além de refletir a sociedade."
    Mas foi só no debate final, de encerramento do evento, que ele relaxou e se deixou ser o velho e bom Cazé dos tempos da MTV: irônico, com seu humor debochado, com tiradas inteligentes e oportunas.
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    (Tarde do último dia) - A TV É COISA SÉRIA?
    1. Renato Ribeiro: "O Estado fornece a concessão pública para a TV e lava as mãos quanto à qualidade dos conteúdos."
    Renato Ribeiro, Professor de Ética e Filosofia Política da USP, se ateve a aspectos relacionados à regulação da TV. Assim, analisou um pouco da legislação referente ao tema.
    O professor coloca um elemento importante, levantado anteriormente por Gabriel Priolli, da TV Puc, na discussão do controle sobre os conteúdos: é necessário que o telespectador seja ouvido. Coloca, então, um questionamento: "Como regular a TV? É preciso que o público reclame, exija, cobre qualidade. Esse é um caminho."
    Avalia a interligação entre TV, Estado e polícia, exemplificando com a implementação de campanhas veiculadas nas novelas e em programas que conscientizam o público sobre certos assuntos. Assim, para Renato Ribeiro, o discurso da TV tem mais força que o acadêmico. "A linguagem da ficção é forte", conclui ele.
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    2. Antonio Abujamra: "Eu não sou um provocador. Eu sou provocado. Eu saio nas ruas do meu país e eu sou provocado".
    "Um amigo é uma espécie de eternidade." (Göethe). Com essa frase serena começa a devastadora participação do diretor e ator Abujamra. Último a falar no evento, como uma catástrofe natural, veio para destruir conceitos, para nos contaminar com sua incoerência, para nos emocionar com a profundidade de seus devaneios sobre a realidade de nosso país. E quando acabou sua participação, fiquei pensando sobre o quanto fazem falta os pensadores, os questionadores, os loucos, os gênios.
    Com toda a solenidade do mundo, disse ainda no início de sua fala, como que anunciando o que estava por vir: "Eu vou tentar ser incoerente".
    Sua definição de TV: "A TV é rascunho e eu quero rascunhar sempre."
    Sobre o tema da mesa, A TV é Coisa Séria?, ele questionou se o Brasil é coisa séria, se o Congresso é coisa séria, se aquele evento era coisa séria. Disse que não queria falar da seriedade das coisas, que não queria ser sério. Então, contou alguns casos da TV ao vivo, bastante divertidos, mostrando o quanto "TV é coisa séria."
    Mas, sua falta de seriedade não durou muito tempo. Logo, já estava narrando a sua visão crua de Brasil e discordando dos que o chamam de provocador: "Eu não sou provocador, eu sou provocado. Eu saio nas ruas do meu país e sou provocado." Disse, e pude perceber toda a dor de suas palavras, que ao ver as pessoas abandonadas nas ruas, "eu sinto uma espécie de qualquer coisa não vai bem." Ele não acredita que a saúde e a educação, apesar de todos quererem provar a ele o contrário, estejam melhorando no país.
    "Nós, artistas, queremos é a imaginação".
    Abujamra deixou claro que gostaria que a TV fosse a arte da democracia. "Ela não é a arte da democracia." Relatou, então, que foi expulso de todas as TV's onde trabalhou.
    Sobre o papel do artista na TV, afirmou: "A imagem escraviza. A TV não pode ser uma bala só no revólver pro' artista. O Collor tentou uma bala só. A TV machuca." Abujamra alertou para o fato de que não viu ainda alguém que tenha feito televisão a vida toda não ter pago alguma coisa por isso. "É preciso não trocar a vida pela televisão."
    Em relação ao distanciamento entre a TV e a vida real, declarou: "A TV dá a impressão que não compreende os problemas que ela escolhe. Ela faz a estética a partir do sofrimento das outras pessoas."
    Repetiu inúmeras vezes, como para que decorássemos: "A TV tem que ser descoberta. Ela ainda é virgem, ninguém sabe direito o que fazer com ela."
    Abujamra disse não gostar quando a TV determina opiniões, diz verdades absolutas. Para ele, ao contrário, "o artista tem que idolatrar a dúvida".
    Sobre planejamento em cultura, "temos que ter cuidado com aquilo que se faz. Tem que atuar hoje e não projetar para um ano ou daqui a 5 anos."
    Na relação entre televisão e teatro, para ele, o teatro é a grande escola: "O teatro é a fornalha do ator. É lá que ele vai entender o gesto que ele faz, o gestual, o gesto social. A TV é execução: não há tempo."
    Por fim, relembrou um pouco o passado do teatro, a censura e os grandes nomes. "Nunca mais se viu uma grande criação no teatro e na TV brasileira."
    Encerrando, em um vídeo de 8 minutos, Abujamra dispara incessantemente, insanamente, sensatamente contra a TV e o meio artístico. Quando terminou o filme e se acenderam as luzes, nossos conceitos estavam aos pedaços. E não havia mais tempo para recompô-los. O evento havia terminado. E ainda bem que terminou assim, da forma mais criativa e crítica possível, com toda a crueza, com toda a poesia e com toda a louca beleza de Abujamra.
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