GLAUCO MATTOSO - POETA DA CRUELDADE
Enfim uma peça atreve-se a trazer ao palco a vida de um dos mais polêmicos poetas da Geração 70: Glauco Mattoso. Sempre achei que não precisávamos recorrer aos famosos "poetas malditos" franceses, quando no Brasil tínhamos o nosso grande Glauco: assumidamente homossexual, coprofágico, podólatra, e atualmente cego. O texto de Denise Camilo Duarte mostra a genialidade do poeta, fazendo com que os poemas se constituam na própria narrativa dramatúrgica, através da qual dialogam vozes do passado com sons do presente, não em uma integração harmoniosa, o que destoaria da própria intenção da peça, mas em uma estranha dodecafonia que traduz, com maior fidelidade, o universo deste poeta, cuja maior ousadia é não separar sua obra de sua vida, dicotomicamente, fazendo da sua literatura uma espécie de autobiografia de suas vivências. A autora deixa no ar duas interrogações: vivenciando o que o autor viveu, escreveríamos diferente? Medraríamos e apenas agradeceríamos a Deus "por nos deixar respirar, por nos deixar existir", omissamente?
Para Artaud, o Teatro tinha que ser cruel para despertar no espectador, através da própria carne, as adormecidas emoções, a fim de fazer explodir o grito recalcado, "o seu quase gosto pelo crime, as suas obsessões eróticas, a sua selvageria, as suas fantasias, e mesmo o seu canibalismo". Só assim, perturbado a tal ponto, o público se transformaria. Quer queira quer não, Glauco faz a mesma coisa com sua poesia - uma aventura, uma experiência comovente e verdadeira -, que a peça mostra de forma impactante e perturbadora.
Leila Míccolis
poeta, escritora de cinema, teatro e TV
(09/03/2003)
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Para entender Glauco Mattoso é preciso degustar cada palavra de seus versos, cheirar cada letra, lamber cada rima, devorar cada métrica. Glauco é intenso demais pro nosso tempo e sua grandiosa e bela obra permanecerá como um legado a ser deglutido pelas próximas gerações.
Denise Duarte
(27/04/2003)
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