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Capítulo 4
As "Cidades Maravilhosas"... cenográficas
Por Leila Míccolis*
(20/10/2003)
Antes de entrar no assunto, quero comentar um fato que se deu semana passada (dia 16/10), no "Seminário de Jornalismo e Literatura", na Academia Brasileira de Letras. Na palestra do acadêmico Arnaldo Neskier, ouvi, com grande surpresa e satisfação, ele citar "Kananga do Japão" como um dos exemplos de um novo gênero literário, por ele denominado de "novela-crônica", ao lado das atuais novelas "Mulheres Apaixonadas", de Manoel Carlos, e "Celebridades", de Gilberto Braga. É bom ver que intelectuais do porte de Neskier consideram que a televisão pode fazer literatura e o faz, efetivamente, em diversas obras de telenovelas. O depoimento total pode ser lido em Blocos, dentro de Literatura, na parte relativa ao Seminário.
Cidades cenográficas são cidades de cartão postal (caríssimas), onde cabe tudo o que você pensar e o que você não pensou em encontrar também. Para quem não as conhece, o filme "O Show de Truman", de 1998, escrito por Andrew Niccol e dirigido por Peter Weir, mostra o que é possível dentro da área destinadas a elas - até furacões e ondas gigantescas. Assim como há prédios inteligentes, a Cidade Cenográfica é toda controlada por botões e por uma equipe técnica experiente, para lidar com os mais diversos tipos de situações e emergências...
Para os escritores é importante visitá-las, não só para mergulhar no "clima da época", que há em cada detalhe, pesquisado com esmero, como também para conhecer o material que pode ser utilizado em certas cenas. Foi justamente o que aconteceu no primeiro set (local de filmagem) que visitei em minha carreira, em "Olho por Olho". No estúdio, dentro de um espaço mínimo, havia lugar de sobra para os detalhes, que abrangiam inclusive aparelhos completos de jantar de porcelana chinesa na casa do "vilão" rico e um relógio que, em perfeito funcionamento, marcava simultaneamente diversos fusos horários - em homenagem ao qual, fiz muitas cenas. Essa visão panorâmica ambiental ajuda o telespectador a entrar no clima, na atmosfera proposta pelo texto; não são, pois, meros objetos de cena: eles podem e devem participar da própria trama (alguém que atrasa o relógio de propósito com intenções escusas, uma louça intocável que é caríssima e a dona da casa não tem como adquirir outra), sublinhando os perfis psicológicos ou a intenção oculta dos personagens.
Nada se compara, porém, à cidade construída para Kananga do Japão... Era um sonho, o máximo da fantasia, da mágica ilusionista - Brecht que me perdoe tanto entusiasmo - a serviço do simulacro da realidade; representava o máximo da virtualidade, do que poderia vir-a-ser de verdade. Linda e perfeita dava asas à nossa imaginação, em seu fabuloso faz-de-conta: as frutas, os posters, as fachadas dos prédios, os chafarizes, os bondes... uma aula de história antiga sincronizada harmonicamente com a tecnologia mais avançada. E impressionava o cuidado com que cada peça era feita por hábeis artífices anônimos, empenhados em produzir emoção, através de sua sofisticada arte.
Nestas obras-primas de alvenaria e carpintaria, nada faltava: nem água nas bicas, nem luz nas casas; os aparelhos telefônicos funcionavam sempre muito bem e as ruas estavam sempre impecavelmente limpas e asfaltadas... Saí emocionadíssima da Cidade Cenográfica de Kananga, na Barra da Tijuca, desejando que o Brasil inteiro tivesse a oportunidade de morar, um dia, na cidade de seus sonhos - feita não de aparências, mas construída pelo seu trabalho, e maravilhosamente concreta.
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Hoje tenho a alegria de responder a pergunta do Glauco Damas (alegria por ver que bons escritores estão lendo esta coluna e se interessando pelo assunto), autor do livro juvenil "Aventura Alucinante", que acaba de sair pela Saraiva.
- Queria que você comentasse sobre os colaboradores e autores de novelas. Sem dúvida são importantíssimos, mas não há hoje um "excesso" de gente cuidando do texto, no caso de alguns autores? Isso não atrapalha? Não acha que, quanto menos escritores, melhor, apesar do trabalho ser alucinantemente estressante? Essa dúvida que você vai me tirar é antiga: sem dúvida os colaboradores são essenciais, indispensáveis, mas quanto a um "excesso"... eu não sei... Talvez você me surpreenda dizendo que, ao contrário, quanto mais gente, melhor. Você tem experiência nisso, não eu. Portanto, estou MESMO curioso. Que chegue logo a próxima coluna!
- LM - Glauco, o mais fácil seria eu dizer que "depende muito do colaborador ou do tipo de colaboração". Neste caso, porém, eu estaria usando como critério a avaliação de "material humano", o que me parece uma coisificação depreciativa. Também seria meia-verdade "uma equipe maior dá mais segurança ao autor e aos co-autores" porque, como você mesmo observou, poderia causar mais problemas e conflitos. No entanto, não se trata de "cada cabeça uma sentença", o que seria perigosíssimo para o produto final (um matava, o outro ressuscitava, no dia seguinte...). Todos pensam na mesma direção, dentro da sinopse estabelecida e da macro-estrutura delineada previamente. Sendo assim, a realidade muda um pouco, e a quantidade de colaboradores pode ser encarada como um "estágio", uma "escola prática" para a formação de novos escritores. Visto sob este ângulo, o número maior de colaboradores visa muito mais a um aprendizado coletivo, a um treinamento intensivo do que a um trabalho efetivamente em conjunto. E, nestes termos, não há que falar em excesso, porque quanto mais autores forem treinados por bons profissionais, mais se tornarão, literalmente, uma belíssima "mão-de-obra" especializada.
Cenas da próxima crônica, na 1ª quinzena de novembro
Cap 05: Como se faz uma novela.
(*) Poeta, escritora de cinema, teatro e TV ("Pais Problemas", "Rainha da Vida", "Olho por Olho", "Kananga do Japão", "Barriga de Aluguel", "74.5" (versão internacional), "Mandacaru", entre outros, ex-roteirista da Rede Globo e da TV Manchete.
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