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Capítulo 11
Celebridade e o estilo de Gilberto Braga
Por Leila Míccolis*
(09/02/2004)
Hoje, na berlinda, ou melhor, em cena, Gilberto Braga, com duas novelas bastante inovadoras: Dancing Days (1978) e Celebridade (2004).
O tema da primeira foi sugerido por Janete Clair: uma ex-presidiária que tenta integrar-se na sociedade, depois de cumprir sua pena. Naturalmente, recheando esta story-line havia o conflito afetivo da personagem principal, Júlia (Sonia Braga), com a filha (Glória Pires), criada pela irmã de Júlia, Yolanda Pratini (Joana Fomm) e seu marido (José Lewgoy) - casal da alta sociedade. Esta trama central foi tão bem trabalhada por Gilberto Braga que Dancing Days foi a primeira novela a influenciar ostensivamente os hábitos de consumo do público. Lançando diversos modismos, ela acabou promovendo vários produtos, desde meias de lurex até água de colônia - incrementando, portanto, o merchandising, até então ainda sem muita força dentro das novelas.
Promoveu também a música-tema da abertura, o próprio Dancing Days, de Nelson Motta e interpretada pelas Frenéticas, gerando uma verdadeira onde de discotecas brasileiras. Segundo fontes oficiais da emissora, o disco da trilha sonora internacional vendeu um milhão de cópias.
Quanto à trama, é praticamente dividida em duas partes: na primeira parte, Júlia sofre todas as espécies de humilhações, inclusive ela volta para a prisão, por tumultuar com sua bebedeira o casamento da filha. Ela vai de mal a pior, até que aceita casar-se com Ubirajara (Ary Fontoura), um milionário que é apaixonado por ela. Quando volta ao Brasil, está totalmente mudada e acaba por dar uma quinada em sua vida de 360 graus.
Segundo a crítica especializada, Dancing Days inaugurou o estilo dramatúrgico de Gilberto Braga, "marcado pela crônica de costumes e pela discussão dos valores da classe média e das elites urbanas" (Dicionário da TV Globo).
Nos dias atuais, assistimos Celebridade, de Gilberto e Leonor Bassères, uma dobradinha autoral que deu certo enquanto durou, e que findou agora, dia 30 de janeiro deste ano, com a morte de Leonor. Tenho lido várias críticas desfavoráveis, mas é inegável o sucesso da trama, muito bem armada e desenvolvida, inclusive com atores excepcionais, como Cláudia Abreu, Julia Lemertz (que também atuou em Kananga do Japão), Fábio Assunção, Deborah Evelyn (a insegura Beatriz), Déborah Secco, Juliana Paes e, inclusive, Paulo Vilhena, que está muito à vontade na interpretação do surfista Paulo César.
Novamente, a novela está claramente desenvolvida em duas partes: na primeira, Maria Clara (Malu Mader), rica e poderosa, é uma empresária de sucesso. Aos poucos, e até por optar em ficar com o marido da filha (Fernando Amorim/Marcos Palmeira) de seu patrocinador (Lineu/Hugo Carvana), ela vai perdendo o status social e acabará tendo de começar a vida quase do zero na segunda metade da novela - graças também à Laura (Cláudia Abreu), que quer vingar-se dela, por ter prejudicado sua falecida mãe.
A fórmula, portanto, no fundo, é a mesma, às avessas: uma virada total na vida da personagem principal, desta vez, ao contrário de Júlia, em Dancing Days, acompanhando o telespectador a trajetória de Maria Clara do estrelato ao anonimato, enredada por um "mar de lama" e por escândalos dos quais participou, mesmo involuntariamente, e tendo que refazer sua vida totalmente, em bases mais sólidas e adultas. No entanto, o que Celebridade inova, ao meu ver, é que, centralizada em um único tema e não em redor de núcleos tradicionais e dicotômicos (ricos e pobres, por exemplo, ou bons e maus), acaba por imprimir um ritmo muito mais ágil às tramas, uma vez que os personagens podem juntar-se e separar-se com mais rapidez, transitando por todos os lugares sem precisar de mirabolantes explicações ou motivos forçados, e também podendo sofrer mudanças radicais e abruptas de comportamento, já que não estão presos a uma classe social, ou a um lugar específico, mas a um ideal de vida, bem mais etéreo e mutável, de acordo com os interesses imediatos que surgem.
O resultado final é uma novela interessante, divertida, instigante, com uma grande riqueza de "viradas" e "incidentes de percurso", em que todos os personagens são, ao mesmo tempo, vítimas e cúmplices de seus erros, acarretando, esta intensa mobilidade, surpresas e "ligações perigosas", em todos os capítulos e a todos os momentos.
Email desta quinzena: de I. Vargas
- Gostaria que você me respondesse três perguntas:
- 1) Como chegar à escolha do ator ideal para tal personagem?
LM - Vargas, o ideal é que os personagens sejam tão bons que qualquer ator se identifique com eles... O comum não é adaptar os papéis aos atores, até porque, se os que idealizamos não podem por algum modo atuar, ficamos muito frustrados e esta decepção pode interferir no rumo daquele personagem específico.
- 2) É o autor que escolhe os atores que atuarão na novela?
LM - O escritor tem limitado poder de barganha: só pode optar entre os atores disponíveis naquele momento dentro do respectivo núcleo. Sempre se pode chamar algum ou outro de um núcleo diverso, para uma participação especial, mas, neste caso, o personagem terá pouco tempo de vida na novela, ou seja, atuará em poucos capítulos.
- 3) Os resumos semanais ou diários publicados pelas revistas e/ou jornais são
responsabilidade dos autores enviarem?
LM - Antigamente o escritor passava informações diretas para os jornalistas; hoje em dia, dependendo do canal, há uma pessoa exclusivamente encarregada disso.
Cenas da próxima crônica, na 2ª quinzena de fevereiro:
Cap 12: O que é que a novela vende?
(*) Poeta, escritora de cinema, teatro e TV ("Pais Problemas", "Rainha da Vida", "Olho por Olho", "Kananga do Japão", "Barriga de Aluguel", "74.5" (versão internacional), "Mandacaru", entre outros, ex-roteirista da Rede Globo e da TV Manchete.
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