Roteiros On Line - Entrevistas:

Bráulio Mantovani - O Roteiro de Tropa de Elite

(Rio de Janeiro, São Paulo - 21/10/2007)



"Não consigo levar a sério críticas que se referem ao Tropa de Elite como um filme hollywoodiano. Um filme com um final pessimista como o Tropa e com um personagem sem redenção como o Nascimento dificilmente seria feito em Hollywood." (Bráulio Mantovani)



  • Denise Duarte - Bráulio, o roteiro de Tropa de Elite surgiu antes do filme, certo? Só depois de iniciado o roteiro, Rodrigo Pimentel escreveu o livro de mesmo nome. O crédito pelo roteiro de Tropa de Elite é assinado por você, pelo diretor José Padilha e por Rodrigo Pimentel. De que forma vocês trabalharam o roteiro, houve uma divisão de tarefas? A participação de Rodrigo Pimentel trouxe insumos ao roteiro? De que forma se deu a participação de cada um?

    Bráulio Mantovani – Quando eu entrei no projeto, já existia um roteiro escrito pelo Padilha e pelo Pimentel. Eu comecei como script doctor. Li diferentes versões do roteiro e dei meus palpites. Acabei entrando no projeto e trabalhei sozinho em uma nova versão do roteiro. O Padilha trabalhou em cima da minha versão. Devolveu pra mim. Fiz novas alterações. O Pimentel, nesse ponto, lia o que escrevíamos e fazia as sugestões dele. Como ex-policial do Bope, ele sem dúvida contribuiu com a maior parte das histórias do filme. O livro sempre foi um projeto paralelo. Tem sua própria identidade.

  • DD - Como foi feita a adaptação do filme Tropa de Elite?

    BM – Não houve adaptação. O roteiro é original. O livro foi escrito paralelamente ao roteiro.

  • DD – Qual a diferença entre o roteiro adaptado de Cidade de Deus e de Tropa de Elite?

    BM – A primeira diferença é que o Cidade de Deus é uma adaptação. O Tropa é um roteiro original. A segunda é o ponto de vista. A narrativa em Cidade de Deus é do ponto de vista de quem vive na favela. No Tropa, o ponto de vista é o da polícia que invade a favela. De certa forma, os filmes se complementam, como dois lados de uma mesma moeda.

  • DD - A interpretação dos atores, em destaque a esplêndida interpretação de Wagner Moura, são impressionantes. Como foram construídos os diálogos?

    BM – Os atores não leram o roteiro. Exceto o Wagner, eu acho. Eles improvisaram os diálogos, o que deu mais verdade aos personagens.

  • DD - No Brasil não há a figura do dialoguista em cinema, certo? Que caminhos o roteirista pode seguir para construir diálogos fluentes e realistas, como os de Tropa de Elite?

    BM – Eu acho que para escrever diálogos é preciso aprender a ouvir as pessoas. As pessoas falam de maneiras diferentes. Não é só uma questão de vocabulário (gírias, palavrões). É mais uma questão de sintaxe. O jeito de construir as frases, a forma de elaborar o pensamento é o que muda de uma classe social para outra, varia de acordo com o sexo e até mesmo de pessoa para pessoa. Depois do Cidade de Deus, é cada vez mais comum deixar que os atores improvisem os diálogos. Eu penso que essa estratégia é muito boa, mas não exime o roteirista de caprichar nos diálogos do roteiro. Acho que o processo ideal é escrever os diálogos com capricho. Depois, deixar os atores improvisarem. Aí, o roteirista pode ir ver os ensaios do filme e colaborar na forma final dos diálogos junto com os atores.

  • DD – Além dos sucessos de longas como Cidade de Deus e Tropa de Elite, você também desenvolveu o roteiro para uma das salas do Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, onde os visitantes podem brincar com os radicais das palavras. Que outros trabalhos você vem desenvolvendo?

    BM – Faz tempo que eu só me dedico a longas-metragens. O trabalho no Museu da Língua Portuguesa foi uma exceção. Dei uma forcinha para o Marcelo Tas, pela amizade que temos.

  • DD - No livro de John Brady, El Oficio del Guionista (tradução do original The Craft of the Screenwriter), o roteirista Paddy Chayefsky, um dos quatro entrevistados pelo autor, aponta que, segundo sua opinião, no mundo todo só existem seis bons roteiristas de cinema. Por que é tão difícil dominar essa técnica? A elaboração de um roteiro de longa metragem para cinema é uma técnica complexa?

    BM – Não sei se o Chayefsky está certo. Ele diz quem são os seis? Não acho que seja difícil dominar a técnica do roteiro. Difícil é encontrar boas histórias e bons personagens. A técnica é fundamental para se encontrar a melhor maneira de dar forma dramática aos personagens e histórias. Eu acho que o problema é usar “fórmulas” em vez de buscar formas narrativas. Qualquer trabalho criativo só vale a pena se implicar algum risco. É preciso ter coragem de tentar coisas novas e enfrentar o fracasso. Falhar faz parte do jogo.

  • DD - Como você vê o roteiro hoje, no Brasil?

    BM – Acho que o roteiro é hoje valorizado no Brasil como nunca foi antes. As leis de incentivo obrigaram os produtores e diretores a investir mais no roteiro. E isso está mudando a vida dos roteiristas no Brasil. É o momento de a gente caprichar como nunca nos roteiros. E lutar por melhores cachês e maior reconhecimento autoral. Foi por isso que fundamos a Autores de Cinema (AC). A profissão de roteirista tem que valer a pena. Tem que ser uma carreira atraente. Quando isso acontecer, os talentos vão aparecer.

  • DD - O filme transformou-se em um espetáculo midiático impensado até então, seja pela pirataria e divulgação, inicialmente boca a boca e que acabou por alcançar milhares de pessoas, principalmente no Rio de Janeiro, bem antes de chegar aos cinemas, seja pelos resultados das pesquisas divulgadas em vários jornais e que apontam para uma quase que unânime aprovação ao longa, pesquisas essas realizadas também antes de chegar às telas de cinema. Também fazem parte da trajetória de Tropa de Elite, entre outros, aplausos ao Bope no desfile de 7 de setembro, no Rio, e o recente suicídio, em Recife, de um policial, ainda dentro da sala de cinema, logo após o final de uma exibição do filme [matéria publicada no jornal O Globo, de 17/10/2007, p. 17]. Qual o impacto de tudo isso sobre você? O que pensa a esse respeito?

    BM – Não foram milhares, mas milhões de pessoas que viram o DVD pirata. A última pesquisa diz que foram 11,5 milhões de pessoas. Um filme com esse alcance acaba gerando os mais variados tipos de reação. Eu não conseguiria aplaudir o BOPE depois de ver aquelas cenas de tortura. Mas aparentemente, tem gente que aprova esses métodos. O suicídio do policial tem a ver com a vida dele, não com o filme. Lembre-se que nos anos 60, um maluco chamado Charles Manson saiu matando pessoas, inclusive a atriz Sharon Tate (casada então com Roman Polanski), inspirado em canções do Álbum Branco dos Beatles. Mason fazia uma interpretação tresloucada da canção Helter Skelter, considerando-a uma metáfora sobre o conflito racial nos EUA. Ora, a canção é sobre um passeio em uma montanha russa. Tropa de Elite conta a história de um policial de princípios éticos e morais rígidos que só se sustentam do ponto de vista dele. O Capitão Nascimento é um homem em crise, que entra em pânico em função dos mesmos princípios rígidos que defende a ferro e fogo. É uma vítima do sistema que ele defende. É uma história trágica para ele e para o Matias. Entre os milhões de pessoas que viram o filme, alguns milhões entendem a história assim. Outros (serão milhões também?) entendem que o filme faz uma apologia da violência policial. Para mim, trata-se do mesmo efeito Charles Manson, sem chegar a um grau de psicose

  • DD – Por falar nisso, sob o ângulo da crítica, Tropa de Elite tem recebido alguns julgamentos a meu ver completamente descabidos, entre eles, esse que você citou, sobre a apologia à violência. Isso torna bastante atual a fala de Glauber Rocha ao ver seu filme recém lançado, Terra em Transe, receber críticas igualmente desmerecidas. Em outras palavras, disse ele, à época, que o sucesso, no Brasil, incomoda. Você acha que a crítica brasileira feita ao cinema nacional é diferente da mesma crítica tecida ao cinema estrangeiro? Há uma espécie de antropofagia de nossa crítica em relação ao nosso cinema, entendido aqui como o cinema que tem alcance e repercussão positiva junto ao público?

    BM - Acho que o Glauber tem uma certa razão. Mas eu não vejo a crítica como uma entidade uniforme. Tanto no caso do Cidade de Deus como no Tropa de Elite, as críticas são muitas vezes antagônicas. Para mim isso é um sinal de que esses filmes têm uma certa complexidade. Eu não me incomodo com críticas negativas. Elas ajudam a refletir sobre o trabalho e a tentar melhorar no próximo. Mas não consigo levar a sério críticas que se referem ao Tropa de Elite como um filme hollywoodiano. Um filme com um final pessimista como o Tropa e com um personagem sem redenção como o Nascimento dificilmente seria feito em Hollywood. Tanto que o Harvey Weinstein chegou a dizer para o Padilha que precisávamos de um outro final para o filme, nem que fosse apenas para lançar uma versão diferente nos EUA. Felizmente, ele mudou de idéia depois de ver o sucesso do filme no Brasil. Quem diz que fizemos um filme hollywoodiano está com as idéias fora do lugar.

  • DD - Como o filme tem ido, até agora, em termos de arrecadação nas bilheterias dos cinemas?

    BM – Acabo de ler no Filme B que na quinta-feira (após 3 semanas em cartaz) o filme fez 1 milhão de espectadores. É impressionante.

  • DD – É possível fazer cinema hoje no Brasil sem ter a favela como cenário? Você acha possível ao cinema brasileiro alcançar uma linguagem universal, retratando a gente brasileira, nossos dramas, comédias e tragédias, de forma a tocar o público também de outros países?

    BM – Eu acho que Cidade de Deus é um filme universal. Não sei se o mesmo vai ocorrer com o Tropa. Só o tempo dirá. Eu penso que o cinema brasileiro é bastante plural. Não são só os filmes sobre miséria e violência que fazem sucesso. Veja o caso de 2 Filhos de Francisco, Se Eu Fosse Você, A Grande Família... Histórias bem contadas e bem filmadas chegam até o público. Chegar à universalidade é algo que eu realmente não acredito que se possa conseguir conscientemente. Aliás, nem o sucesso é resultado de estratégias conscientes. A gente tem que ser verdadeiro no que faz e caprichar no trabalho. O resto é conseqüência. Para o bem ou para o mal.

Bráulio Mantovani é um dos roteiristas do filme Tropa de Elite, lançado em 12/10/2007 nos cinemas do país. Nasceu na cidade de São Paulo, em julho de 1963. É formado em Letras pela PUC-SP e tem master em roteiro cinematográfico pela Universidade Autônoma de Madri. Trabalha como roteirista profissional desde 1987. Participou de projetos de educação à distância – como Telecurso 2000 e Oficinas Culturais na TV –, roteirizou programas educativos para a TV Cultura, Canal Futura e TV Escola. É membro da Academy of Motion Pictures (EUA). É autor dos roteiros: "Palace 2" (curta-metragem), "Cidade de Deus", "O Ano em que meus Pais Saíram de Férias" (co-autoria com Claudio Galperin e Anna Muylaert), "Tropa de Elite" (co-autoria com José Padilha e Rodrigo Pimentel), "174" (filmagem prevista para 2007), "Nanny" (filmagem prevista para 2008). É colaborador dos roteiros: "Querô", de Carlos Cortez Magnata, de Chorão Linha de Passe, de Daniela Thomas e Georges Moura.
Denise Duarte é editora do site Roteiros On Line.

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