Borges
e Eu
- Por Glauco Mattoso -
(agosto de 2001)
[1] Em 1955 Borges assumia a direção da Biblioteca Nacional Argentina.
Estava quase cego, mas já era catalogado como escritor e classificado na
prateleira de cima. Vinte anos depois, eu me mudava de São Paulo para o
Rio a fim de assumir o cargo de bibliotecário. Não na Biblioteca
Nacional, mas perto dali, na outra ponta da avenida Rio Branco. Ainda
não estava cego, mas já era portador de glaucoma e era funcionário do
Banco do Brasil, em cuja biblioteca exerci por poucos anos a função para
a qual me bacharelara. Poeta estreante, tinha em comum com Borges o
mesmo que com Homero, Milton ou Joyce: a remota afinidade com autores e
títulos consagrados, compulsados e consultados. Mal sabia eu que teria
outra coisa em comum com eles: a cegueira. Mais vinte anos, e assumi a
realidade em que hoje vivo: o que era "quase" se tornou definitivo.
[2] Até então distante de Borges, como de outros poetas maiores, fui me
aproximando da sua biografia, de coincidência em coincidência. Além de
bibliotecário, poeta, cego, bruxo e apaixonado pelo tipo nipônico, o
Além me armou uma cadeia de sucessos decorrentes. Já desiludido da vida
literária e da própria vida, em 1997 sou convidado pelo professor Jorge
Schwartz a integrar o corpo de tradutores da obra completa do gênio
argentino, publicada pela Globo a partir de 1998. Em parceria com Jorge
traduzi justamente o livro de estréia, FERVOR DE BUENOS AIRES. A
publicação valeu aos tradutores o prêmio Jabuti de 1999, e com minha
parte no dinheiro do prêmio comprei um computador adaptado para cegos.
Graças a essa máquina falante readquiri o hábito de escrever e o gosto
pela poesia. Ao mesmo tempo, a insônia e os pesadelos diuturnos
provocados pelo trauma da cegueira me levaram a compor febrilmente,
memorizando tudo à maneira de Borges. Um furor lírico, onírico,
onanístico e mnemônico que resultou numa tetralogia de sonetos,
parcialmente musicados e gravados em CD por diversos intérpretes.
[3] Retornei do ostracismo ao convívio dos literatos, reapareci na mídia
e até montei uma página virtual. Tudo desencadeado pela cegueira e pela
necessidade de desabafar minha revolta contra essa desgraça. E tudo
devido à oportunidade de traduzir Borges, como se este houvesse
atravessado meu caminho. Não bastasse tanta coisa, o endereço na rede e
o correio eletrônico propiciaram novos encontros e reencontros. Entre os
novos, encontrei meu atual companheiro Akira; entre os contatos
retomados, um leitor que me envia o ensaio de Borges abaixo transcrito.
[4] Trata-se dum texto condensado pelo READER'S DIGEST, em cuja edição
brasileira, SELEÇÕES, apareceu em março de 1985. Originalmente foi
discurso proferido no teatro Coliseo de Buenos Aires. O copyright do
artigo é de 1980 (do mexicano Fondo de Cultura Económica), e consta ter
sido publicado na França (número de maio de 1983 de LE DÉBAT), mas o
livro a que Borges alude no texto, EL ELOGIO DE LA SOMBRA, é bem
anterior: 1969. O ensaio está incluído nas obras completas reunidas pela
Globo: consultei Jorge Schwartz, que me certificou ser o texto
correspondente àquele intitulado "A Cegueira", integrando o livro SETE
NOITES. Neste depoimento Borges recupera sua perda da visão e dá sua
visão da cegueira, enaltecendo-lhe o lado positivo e atribuindo-lhe o
vigor criativo de sua fase mais madura.
[5] Porém Borges não fala apenas de si e por si, mas refere-se aos cegos
de maneira genérica e categórica, pisando, portanto, em meu calo, e não
me calo ante aquilo de que discordo. Borges sustenta que a cegueira não
é uma desgraça. Eu entendo que a cegueira não é uma desgraça: é uma
calamidade, uma catástrofe. Ele diz que é uma bênção; eu digo que é uma
maldição. Em ambos os casos, contudo, há sempre a coincidência que nos
aproxima: a compulsão de poetar, para protestar ou para pretextar. Seja
como for, vale considerar os argumentos de Borges que me proponho a
refutar. Primeiro transcrevo seu discurso; em seguida parafraseio seu
raciocínio, ilustrando o texto com alguns sonetos pertinentes, ou
impertinentes, já que nasceram da inquietude.
O ELOGIO DA ESCURIDÃO
[Um célebre escritor argentino nos fala das benesses preciosas trazidas
a ele pelas sombras de sua cegueira.]
Em 1955, tive a honra de ser nomeado diretor da Biblioteca Nacional
Argentina. Sempre imaginei o paraíso como uma biblioteca. (Outros
pensam nele como um jardim ou, talvez, um palácio.) Lá estava eu, no
meio de 900.000 livros em vários idiomas. No entanto, quase não
conseguia ler-lhes os títulos, as lombadas. Poder-se-ia dizer que,
praticamente, para meus olhos cegos, aqueles livros estavam em branco,
vazios.
Continuo cego de um olho, mas tenho visão parcial no outro, e consigo
distinguir algumas cores. As pessoas pensam que os cegos vivem em total
escuridão, mas o seu mundo não é a noite que as pessoas imaginam.
Vivemos num ambiente impreciso, no qual poucas cores aparecem. O branco
desapareceu ou se transformou em cinzento. No meu caso, ainda existem o
amarelo, o azul e o verde. Eu, que tinha o hábito de dormir em completa
escuridão, fiquei durante longo tempo perturbado por ter de fazê-lo
neste mundo tenebroso, esverdeado ou azulado, o vagamente luminoso
nevoeiro no qual os cegos vivem mergulhados.
Assim, uma das cores que os cegos lamentam já não poderem ver é o
negro; o mesmo acontece com o vermelho. Tenho a esperança de que um
dia, com os tratamentos, eu possa enxergá-lo. Essa magnífica cor brilha
na poesia e tem nomes lindos em tantos idiomas: SCHARLACH em alemão,
SCARLET em inglês, ESCARLATA em espanhol, ÉCARLATE em francês.
Como havia perdido o amado mundo das aparências, resolvi inventar outra
coisa; eu criaria o futuro, aquele que vem depois do mundo visível que
desaparecera para mim. Era professor de literatura inglesa na
Universidade Argentina. Que poderia fazer para ensinar essa disciplina,
que ultrapassa os limites da vida do homem e das gerações?
"Tive uma idéia", disse então a uns alunos que haviam acabado de se
bacharelar. "Agora que vocês estão formados, não seria interessante
estudar a língua e a literatura inglesas livres da frivolidade dos
exames? Vamos começar pelo princípio."
Numa manhã de sábado, reunimo-nos no meu escritório e começamos a ler
THE ANGLO-SAXON READER e THE ANGLO-SAXON CHRONICLE. Cada palavra se
destacava como se estivesse gravada, como se fosse um talismã. É devido
a isso que os versos em língua estrangeira nos parecem em relevo, de um
modo que não acontece na própria língua, pois então ouvimos e vemos
cada palavra, pensamos na sua beleza, força ou simplesmente estranheza.
Quase nos embriagamos com o som de duas palavras: o nome de Londres,
LUNDENBURH, LONDRESBURGO, e o de Roma, ROMEBURH, ROMABURGO. Essa
sensação ainda se tornou mais intensa quando nos demos conta de que a
luz de Roma havia atingido aquelas ilhas boreais perdidas. Penso que
fomos para a rua gritando LUNDENBURH, ROMEBURH.
Eu havia substituído o mundo visível pelo audível da linguagem
anglo-saxônica. Daí passei para outro ainda, mais rico e mais antigo, o
da literatura escandinava; passei para as EDDAS e as sagas. Mais tarde
escrevi um ENSAIO SOBRE A ANTIGA LITERATURA GERMÂNICA. Criei muitos
poemas baseados nos temas dessa literatura, mas sobretudo o que me
encantava era ela própria.
Não permiti que a cegueira me derrotasse. Além disso, meu editor me
trouxe excelentes notícias: se eu lhe entregasse 30 poemas por ano, ele
os publicaria em forma de livro. Trinta poemas. Para isso era preciso
disciplina, especialmente quando é necessário ditar cada linha. Ao
mesmo tempo, porém, eu tinha suficiente liberdade, porque num ano
surgem 30 oportunidades para escrever um poema. A cegueira não foi para
mim uma desgraça total. Deveria ser considerada como um modo de viver,
nem por isso completamente infeliz; um estilo de vida como qualquer
outro.
Ser cego tem as suas vantagens. Pessoalmente, devo certas dádivas às
sombras: o anglo-saxão e os rudimentos do islandês. Existe também a
alegria de muitos poemas, além de ter escrito livros, inclusive um
chamado, não sem alguma duplicidade, como se de um desafio se tratasse,
O ELOGIO DA ESCURIDÃO. Os cegos também se sentem cercados de carinho.
Todo mundo tem afeto pelos cegos.
O poeta espanhol frei Luis de León escreveu:
Quero viver comigo,
Gozar o bem que devo aos céus,
Sozinho, sem testemunhas,
Livre do amor, do ciúme,
Do ódio, da esperança, dos cuidados.
Se concordarmos que entre as benesses que nos são enviadas pelos céus
está a escuridão, quem poderá viver melhor consigo próprio, quem será
capaz de se conhecer melhor, como disse Sócrates, do que um cego?
Gostaria de evocar aqui outros casos ilustres. Não sabemos se Homero
existiu mesmo; talvez não houvesse um só Homero mas muitos gregos
escondidos sob esse nome. Eles, porém, gostavam de imaginar que o poeta
era cego, para realçar o fato de que a poesia é antes de tudo música, e
a faculdade visual pode ou não estar presente num poeta.
A cegueira de John Milton foi proposital. Ele estragou sua visão
escrevendo panfletos em defesa da execução do rei pelo parlamento.
Costumava dizer que havia perdido a vista em defesa da liberdade. Ele
falava dessa nobre tarefa e não se queixava por ser cego. Compunha
versos e sua memória melhorou. Após cegar, Milton passava muito tempo
sozinho. Escreveu um longo poema, PARAÍSO PERDIDO, sobre o tema de
Adão, pai de todos nós. Embora cego, Milton conseguia manter na cabeça
40 ou 50 hendecassílabos, que depois ditava às pessoas que vinham
visitá-lo. Foi assim que escreveu PARAÍSO PERDIDO.
Vamos lembrar outro exemplo, o de James Joyce. A quase infinita língua
inglesa, que tantas possibilidades oferece ao escritor, não lhe era
suficiente. O irlandês Joyce lembrou-se de que Dublin havia sido
fundada por vikings dinamarqueses. Assimilou o norueguês, depois
estudou grego e latim. Aprendeu muitos idiomas, e acabou escrevendo num
idioma que ele próprio inventou, difícil de entender, mas que possui
uma estranha musicalidade. E declarou corajosamente: "De todas as
coisas que me aconteceram, a menos importante foi a cegueira." Parte da
vasta obra que deixou foi escrita na escuridão, trabalhando as frases
de memória, às vezes passando um dia inteiro preocupado com uma única
frase.
Um escritor, um artista ou qualquer pessoa deveria ver nas coisas que
lhe sucedem uma como ferramenta, deveria pensar que tudo lhe é dado com
alguma finalidade. O que lhe acontece, inclusive as humilhações,
fracassos, desgraças, é-lhe dado como uma argila, como matéria para sua
arte. É preciso tentar beneficiar-se disso. Tais coisas nos foram
destinadas para as transformarmos, a fim de que, a partir das
circunstâncias dolorosas de nossas vidas, possamos fazer algo de eterno
ou que aspire a sê-lo. Se um cego pensar dessa maneira, estará salvo. A
cegueira é uma dádiva.
Pense no crepúsculo. Ao cair da noite, as coisas mais próximas
desaparecem, exatamente como o mundo visível se afastou de mim, talvez
para sempre. A cegueira não é uma desgraça total. É mais um instrumento
que o destino ou a sorte colocou em nosso caminho.
(JORGE LUIS BORGES)
Minha réplica ao Mestre é a seguinte:
A NEGAÇÃO DO NEGRO
[6] Em 1972 bacharelei-me em biblioteconomia pela Escola de Sociologia e
Política de São Paulo. Não compareci à colação de grau, menos porque o
paraninfo fosse o então governador Laudo Natel, títere do regime
militar, que pela farsa da cerimônia onde se entregava um canudo vazio,
já que o diploma pendia de registro em Brasília. Não obstante, fui o
primeiro da turma e me orgulhava da profissão escolhida. Tive a honra de
estagiar na Biblioteca Municipal Mário de Andrade, cujo patrono
inaugurou a moderna poesia brasileira com um livro intitulado PAULICÉIA
DESVAIRADA. Cantava Mário sua cidade com o mesmo fervor de Borges.
[7] Sempre imaginei uma biblioteca como um inferno, termo que no jargão
técnico designa o depósito das obras proibidas à consulta do público,
somente acessível aos censores e aos bibliotecários. Durante períodos
ditatoriais o acervo dos "infernos" chega a ser maior que o da seção de
empréstimos ao leitor. Eu, que já era leitor de Sade, aproveitei para
conhecer, além da obra completa do Divino Marquês, a obra incompleta do
Profano Marx. Aludi ao deslumbramento do aprendiz de bibliófilo em dois
sonetos, ao mesmo tempo em que evocava minha iniciação heterossexual
comparando a origem nipônica da namorada à de Maria Kodama, companheira
de Borges:
SONETO 358 COINCIDENTE
De bibliotecário foi o grau
primeiro que colei, e uma colega
nissei foi a primeira que se entrega
a mim. Não titubeio, e creio: Crau!
Não fui, porém, apenas lobo mau,
nem ela brincou só de pega-pega.
A gente cria laços e se apega
ao outro, quando está na mesma nau.
Também ela sofrera hostilidade
dos pais, mais japoneses que os do Império,
e tinha em mim alguma afinidade.
Nós éramos à parte, um caso sério.
Kodama foi do Borges, mas quem há de
ser minha, quando cego? Que mistério!
SONETO 359 REINCIDENTE
Nos livros respirei literatura.
De bibliotecário para autor
a diferença é pouca: está na cor
da capa ou na lombada da brochura.
Mas nunca encontra aquilo que procura
quem sonha em ser do Borges seguidor:
Terá seu labirinto aonde for,
e a cada dia a noite é mais escura.
Meus livros e os de Borges, mesma estante...
Será? Que paulistano desvario!
Serei Bocage ou Sade? Homero ou Dante?
Meu olho já estaria por um fio.
Planejo um suicídio, mas distante,
e parto de São Paulo, rumo ao Rio.
[8] Em 1973, quando ingressei no curso de letras vernáculas da USP, já
estava cego do olho direito, que não resistira à cirurgia feita no ano
anterior para tentar deter o avanço do glaucoma. Ainda enxergava do
esquerdo, porém à custa duns óculos fundo-de-garrafa que me corrigiam a
crescente miopia. Do olho perdido a lembrança mais nítida era a bola de
luz em que se transformava um simples ponto luminoso, desfocado pelo
efeito míope. Quando a luz era vermelha, a cor desmaiara
progressivamente até converter-se em branco. Quando o vermelho coloria
um objeto opaco, sem brilho, era percebido como um cinza escuro. O
vermelho e o verde foram as primeiras cores desaparecidas, mas o verde,
também desbotado para o cinzento, não me causava tanta sensação de
ausência quanto a falta do vermelho. Duas décadas depois, a mesma
descoloração se repetiria na retina do olho esquerdo, prefigurando a
cegueira iminente. Ironicamente, enquanto eu perdia o vermelho de vista,
a vista ganhava um tom avermelhado em seu aspecto exterior, devido à
hemorragia interna. Não por acaso dei às tonalidades rubras a mesma
ênfase com que Borges decantava o escarlate:
SONETO 332 CROMATOLÓGICO
O branco é somatória; o preto, ausência.
O verde é o tom de azul com amarelo.
O cinza é um preto e branco menos belo.
Violeta é um desafio pra ciência.
Marrom e creme é mera conseqüência.
Abóbora e laranja não pincelo.
Magenta e sépia existem só no prelo.
Vermelho é comunista ou emergência.
Mania do pintor, como do vate,
as cores são constantes citações:
carmim, rosado, púrpura, escarlate.
Nuances, sangue em manchas e borrões
fizeram do meu olho este tomate,
e só guardei da cor recordações.
[9] Borges decidiu reinventar o futuro. Parecia ver o mundo com óculos
cor-de-rosa. Tinha confiança nos médicos e tinha a confiança dos
editores. Já era famoso quando cegou, e a cegueira só faria aumentar seu
prestígio. Tinha motivos para não se lamentar. Comigo dava-se o inverso.
Quanto mais cego, mais me apegava ao passado, às reminiscências da
memória visual. Fiz dos traumas de infância (como os abusos sexuais de
que fui vítima à mercê da molecada suburbana) a matéria-prima de minha
poética sadomasoquista e escatológica. Desenganado pelos médicos,
enganado pelos editores, perdi as esperanças de conviver pacificamente
com a deficiência física e a indiferença alheia. Mas limitei-me a
resumir no detalhe fetichista minhas divergências com Borges, que afinal
apenas realçavam os denominadores comuns:
SONETO 53 BORGIANO
"Fervor de Buenos Aires" foi a estréia.
Seguiu-se à sagração da sua cidade
a Universal da Infâmia, a Eternidade,
e a História alcança as raias da Epopéia.
Estive na portenha urbe européia;
Também perdi a visão na meia idade;
Coincidência ou não, também fui Sade,
um bruxo logo abaixo de Medéia.
Talvez eu tenha achado no Argentino
um tom de tango astral na escura zona
e o dom da decadência do Destino.
Mas falta algo, que Borges não menciona...
Algum lugar no cosmo que imagino...
Alguém lambendo o pé do Maradona!
[10] Borges não se dava por vencido pela cegueira. Sentia-se motivado a
continuar produzindo, até porque seu editor lhe encomendava trinta
poemas por ano. Em mim a cegueira tinha o peso da derrota, mas, talvez
porque nenhum editor me garantisse publicação, produzi, não trinta, mas
trezentos poemas num ano, sem outro estímulo a não ser desabafar meu
inconformismo. No fundo, amparo ou desamparo têm como pano de fundo o
mesmo infortúnio, diante do qual cada um de nós reage de maneira
diversa, porém tendente ao mesmo resultado: capitalizar a tragédia
pessoal e multiplicar-lhe os dividendos.
[11] Borges invoca literatos ilustres para lastrear sua apologia da
cegueira enquanto "argila" e "ferramenta", matéria-prima a ser moldada
pelo cego à sua feição. Neste ponto fiz coro com seu mote e glosei-o num
soneto convenientemente grandiloqüente:
SONETO 244 PRODIGIOSO
Talvez o maior mérito de Homero
é ter feito o que fez sem ter visão.
Se Milton, Camões, Borges, Lampião
fizeram, vou fazer também, espero.
Zarolho ou cego, não quero ser mero
passivo espectador da ocasião.
Verei o que videntes não verão;
Se sábios não souberam, eu supero.
Beethoven era surdo, e foi maior.
O grande escultor nosso era sem mãos.
Perder não é dos males o menor.
Abaixo estou de todos meus irmãos.
Que o mais pecaminoso sou pior.
Meu trunfo é só não ter dois olhos sãos.
[12] Por falar em glosas e motes, omiti um dos cegos mais célebres da
poesia popular: Cego Aderaldo, considerado o último dos grandes
cantadores nordestinos. Sanei a lacuna compondo uma variante para o
primeiro quarteto do soneto acima, onde aproveitei para satisfazer aos
que estranham a colocação indireta do "talvez" em relação ao verbo
"ser":
Quem sabe o maior mérito de Homero
foi ter feito o que fez sem ter visão.
Se Borges, Aderaldo ou Lampião
fizeram, vou fazer também, espero.
[13] Talvez o ponto em que mais discordo de Borges esteja no carinho que
ele afirma ser por todos dedicado aos cegos. Compreende-se que o Mestre
tenha sido, ele próprio, objeto de maiores atenções e cuidados, estimado
como era. Mas daí a dizer que todos os cegos são bem tratados vai
abissal distância. No meu caso, acentuou-se o sentimento de rejeição,
corroborado por explícitas demonstrações de desprezo e escárnio por
parte de conhecidos e estranhos, vizinhos e transeuntes, o que alimentou
ainda mais o masoquismo extravasado em meus sonetos. Dois dos mais
impiedosos (ou paradoxalmente autocompassivos) são estes:
SONETO 66 CIRCENSE
Pimenta no dos outros é refresco.
É fácil achar graça em mal alheio,
e nada mais propício pro recreio
que a dor do cego em seu negror dantesco.
Meu caso é certamente mais grotesco,
pois presto-me ao vexame sem receio:
Humilho-me lambendo até pé feio,
fedido, sujo, torto ou simiesco.
Ridicularizar-me vem a ser
a grande diversão de quem me vê,
enquanto eu, que não vejo, dou prazer.
Um tipo gozador como você
vai rir se seu sapato eu for lamber,
tal como ri do verso que ora lê.
SONETO 78 SIMULADO
Poeta é fingidor, disse Pessoa,
simula mesmo a dor que está sentindo.
Desconfiemos, pois, do que é provindo
dum cego, se é insensato o que apregoa.
Por mais que ele exagere a dor que doa,
reajam com desdém e leiam rindo;
Por mais que o purgatório seja infindo,
respondam que seu caso é coisa à toa.
É assim que um cego deve ser tratado:
sem credibilidade, sem piedade.
Estendam-no no piso, manietado!
Obriguem-no ao rastejo, sejam Sade!
Se a diversão não for de inteiro agrado,
vai ver que não é cego de verdade...
[14] Como para confirmar a regra, acabei por encontrar no dedicado Akira
uma exceção à hostilidade geral. A este retribuí dedicando um dos
últimos sonetos, em que recapitulo o paralelismo com Borges:
SONETO 435 SORTILÉGIO
Chegando ao meio século de vida,
me achava, feio e cego, na desdita.
Aguardo, em vão: não veio mais visita.
Parece o apartamento muda ermida.
Com Borges tanta coisa é parecida!
Fui bibliotecário; deixo escrita
a saga inacabada. Agora dita
quem antes anotava, e a consolida.
Que tudo coincide, quem diria?
Se alguém for meu biógrafo, confira:
cegueira, poesia, bruxaria...
Efeito que o feitiço não surtira,
enfim surtiu: já tenho companhia...
Em vez duma Kodama, meu Akira!
[15] Talvez o ponto em que mais concordo com Borges seja a constatação
de que a cor preta é, ironicamente, aquela cuja perda os cegos mais
lamentam. De fato, o mais tenebroso dos pesadelos é ficar privado da
escuridão na hora de dormir. Já que não percebe cores, o cego não sente
a diferença entre o claro e o escuro, e tudo lhe parece, todo o tempo,
envolto em opaca névoa, ora amarelada, ora acinzentada, ora esverdeada
(como se afigurava a Borges), mas nunca totalmente escura a ponto de
repousar a visão e atrair o sono. Daí, porventura, uma das causas da
crônica insônia que me atormenta e instiga a poetar. Acima de qualquer
cor, é justamente do preto que o cego sente falta nas horas mais negras
e desesperadas. Precisamente a cor que todos supõem ser a única
perceptível a quem não reconhece a luz. Eis aqui o grande paradoxo da
cegueira: contrariar o senso comum, negar o óbvio. Nesse sentido,
justifica-se que Borges renda tributo à escuridão, equiparando-a a uma
bem-aventurança. Faz igualmente sentido que eu a repudie como à pior das
infelicidades. Ambas as posturas são coerentes. A Borges, a escuridão
reafirmou; a mim, renegou. Ele se realizou como o poeta que cegou; eu me
realizo como o cego que poetou. Cada poeta tem a cegueira que merece, e
cada cego tem a poesia que merece. O importante é que Borges me ajudou,
desde logo, a compreender a dimensão da poesia. As cores têm fronteira,
seja no espaço físico, seja no tempo cíclico. O negro, assim como a
respectiva ausência, é ilimitado, infinito e permanente, tal como a
poesia em que repousa e de que se alimenta. Não há visão, nem sono,
capaz de compensar a ausência da poesia. Não há poesia capaz de
recompensar a cegueira. E não há ninguém, exceto os cegos, capaz de
compreender o relativismo desta verdade, como, de resto, de todas as
verdades.
(GLAUCO MATTOSO)
Agosto/2001
ROTEIROS ON LINE
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