TVez
Capítulo 3
Bastidores, uma novela à parte
Por Leila Míccolis*
(06/10/2003)
Uma coisa é você ouvir as histórias pitorescas sobre bastidores de uma novela, outra é vivenciá-las indiretamente ou ser parte delas... Esta é lição que escritor tem que aprender rapidinho: não só a entender de estruturação de capítulos, mas, também, a lidar com a estrutura da alma humana, bem mais complexa. Prepare-se para ter flexibilidade e aceitar sem grandes estresses os contratempos e imprevistos, que muitas vezes acarretam alterações em cenas já escritas.
Dentre os motivos sérios e justos para uma mudança na trama há as doenças, as operações, os desequilíbrios emocionais ou mesmo mortes de familiares dos atores, enfim, uma série de imprevistos graves que obrigam o autor a refazer vários capítulos (sempre temos uma dianteira de uma semana a um mês de novelas); aqui vou citar só os motivos "pitorescos", quase todos oriundos de estrelismos ou de teimosias pessoais, com relação aos elencos (principal, secundário e coadjuvantes): atores principais que contam falas e reclamam quando algum outro tem uma a mais do que eles; atores que, mesmo a novela sendo de época, não abrem mão de alguma jóia moderna, por mais que a continuísta implore para que eles as retiram durante a gravação da cena; atores que pedem para dar um destino trágico a algum outro que esteja prestes a ofuscar seu desempenho; festas de solidariedade a quem foi prejudicado por tais pedidos ou mesmo motim (greve de gravações) de atores do segundo escalão contra a dos atores do primeiro... Uma típica guerra DE estrelas...
Dentre as histórias mais interessantes - a meu ver - estão aquelas em que alguns autores sugerem mudanças no roteiro, evitando que sua imagem pessoal seja confundida com a da personagem que eles representam - confusão muitas vezes facilitada pelo péssimo desempenho que faz com que eles não pareçam estar representando em momento nenhum... Há três semanas, aliás, a Revista de TV da Globo publicou duas interessantes matérias sobre o assunto: uma sobre Kayky Brito, que está caracterizado de menina, em Chocolate com Pimenta (sendo um adolescente, calculo o que ele anda ouvindo dos coleguinhas preconceituosos... Mesmo assim, lá está ele, atuando muito bem por sinal). A outra, abordando a série de cuidados especiais que precisaram ter Aline Moraes e Paula Picarelli na vida real para que pudesse haver o desfecho amoroso entre as suas personagens, na novela... Pois a historinha que vou contar a seguir aconteceu com um amigo meu, produtor executivo de teatro, que encenou uma peça com duas grandes atrizes globais que estavam com novelas em exibição, na época. A peça estava em turnê pelo Nordeste e, em um shopping, o produtor ouviu o seguinte comentário por parte de duas senhoras que olhavam fixamente para as artistas. Disse uma delas, admirada:
- Olha lá: as duas atrizes de televisão... Elas são amigas...
Comentário da outra:
- Deixa de falar bobagem, você não está vendo que não são elas? Está certo que a de lá se parece com a que faz a novela das sete, e a de cá, com a que faz a novela das oito; mas na vida real são horários diferentes, então uma nem conhece a outra...
Acredite, se quiser...
Mail da quinzena:
- "Leila, andei pesquisando sobre roteiros de filmes, teatros, novelas... até achar você. Desde quando eu era bem menor sempre me interessei em escrever textos... Às vezes me dá até vontade de escrever, mas eu não sei como devo me expressar. Ex: Como devo fazer a fala de um personagem?, tipo assim: Júlia diz: ------.... Sei que para essas coisas existe toda uma técnica, mas gostaria, se possível, que você me aconselhasse de maneira geral" - Sheila Vale.
- LM - Sheila, é difícil falar "de maneira geral", quando se trata de processo criativo, sempre tão pessoal e subjetivo; mas tentarei resumir o assunto, que é vasto, dizendo que a forma com que um personagem fala, depende muito, de um lado, da pergunta e de quem formula a pergunta; e, de outro, de quem responde. Exemplificando: se Júlia for uma personagem insolente, e a pergunta partir de alguém provocativo, tendo o claro intuito de agredi-la, ela vai revidar no mesmo tom, para "arrasar" com quem quer colocá-la mal; se, ao contrário, for uma personagem meiga, que detesta discussões, vai tentar reagir de forma a sair pela tangente, sem ferir o interlocutor, até para não alimentar a situação constrangedora. Diante desses fatores, creio que o melhor meio para você não "errar a mão" em um diálogo é pensar: se eu fosse Júlia, como eu agiria ou falaria, nestas circunstâncias? Atente também para o fato de que nas falas de cada personagem também interagem: o momento psicológico de Júlia, naquele instante (se ela estiver "em paz com a vida", pode até não agredir, mas deixar o interlocutor falando sozinho); e a sua própria condição social: se Júlia for uma favelada, vai ter um tipo de comportamento mais espalhafatoso do que, por exemplo uma rainha, e falará gíria ou usará um linguajar mais popular do que uma professora com mestrado na Sorbonne... De qualquer modo, ambas precisam expressar-se de forma coloquial, dentro de suas características e modos de vida, para que o diálogo não soe falso para quem o ouve. Um bom recurso para aquilatar a naturalidade de um diálogo é ler em voz alta o que se escreveu, a fim de sentir, sonoramente, se uma pessoa como Júlia falaria daquele modo sendo o que é, e se se comportaria daquela maneira, naquele exato momento de sua "vida". Porque diálogo é a troca de energias conflituosas ou amorosas que se interagem. Ou seja: quem não sabe ouvir o outro, quem não presta atenção ao que o outro diz no seu dia-a-dia, pode ter certa dificuldade em dialogar com o papel...
Cenas da próxima crônica, na 2ª quinzena de outubro
Cap 04: As "Cidades Maravilhosas"... cenográficas.
(*) Poeta, escritora de cinema, teatro e TV ("Pais Problemas", "Rainha da Vida", "Olho por Olho", "Kananga do Japão", "Barriga de Aluguel", "74.5" (versão internacional), "Mandacaru", entre outros, ex-roteirista da Rede Globo e da TV Manchete.
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